Uma nova ordem

Herbert Marcuse

Tradução: Newton Ramos-de-Oliveira

Pode-se falar de uma repressão ou de um sistema repressivo que seja específico dos Estados Unidos? Ao que parece, existem apenas diferenças de graus, puramente quantitativas, entre os mecanismos do sistema americano e aqueles de outros países adiantados, capitalistas monopolistas. O traço comum a todos é a ligação entre as formas tradicionais da repressão política exercida pelas forças da Ordem (que cobrem toda a gama da repressão violenta, as sanções econômicas, a justiça de classe e a discriminação) e por um aparelho de doutrinamento em constante aperfeiçoamento (escolas, mídia etc). O que parece específico dos Estados Unidos é a facilidade e a amplitude da integração ao sistema social de uma vasta maioriada população dependente. Esta integração resulta de um duplo fundamento: a) a repressão inclemente que sufocou a evolução de um movimento trabalhista militante; b) o poder produtivo desmesurada do processo capitalista, que consegue ali manter, em que pesem suas dificuldades crescentes, um nível de vida relativamente alto.

Mas as bases dessa integração são minadas pelas próprias tendências que as facilitam e as conservam. Porque é precisamente a potência repressiva da "sociedade de consumo", a dependência do consumidor à escalada das necessidades e das mercadorias, a criação contínua de necessidades novas que exacerbam as contradições no interior do sistema que exigem inescapavelmente a intensificação dos controles repressivos.

Na mesma medida em que a maioria da população alcança a satisfação de suas necessidades essenciais (tanto no plano material quanto no plano cultural), a acumulação crescente do capital impõe a produção de "luxos" que se agregam aos bens de subsistência. No quadro capitalista, isto se traduz pela produção acelerada de vasta dissolução, a obsolescência planejada, as bugigangas e as mercadorias da destruição. Os luxos se tornam as necessidades que o indivíduo precisa adquirir sob pena de perder seu "status" no mercado competitivo, no trabalho e no lazer. Isto, por sua vez, desemboca numa existência devotada inteiramente aos comportamentos alienados, desumanizados, à obrigação de obter um poder aquisitivo adequado mantido através da busca e da conservação de um emprego que reproduz a submissão e o sistema de submissão. O capitalismo americano criou assim uma nova dimensão da repressão: a utilização conjunta da conquista técnica e da miséria (a satisfação das necessidades vitais) para assegurar a perpetuação de uma dependência vital.

A contradição entre uma produtividade que poderia abolir a sujeição dos homens e das mulheres aos instrumentos de seu trabalho e as condições nas quais esta própria produtividade favorece e perpetua a alienação e a repressão acaba por penetrar no consciente e no subconsciente da base. Isto se evidencia no declínio generalizado de uma "ética do trabalho" , nos atos espontâneos de sabotagem. ma violência que em tudo se infiltra etc, em resumo, na desagregação dos valores operacionais de que depende o funcionamento da sociedade capitalista.

No entanto, seria muito falso assinalar no enfraquecimento da coesão social, na deterioração da ideologia capitalista e na desintegração de sua hierarquia de valores a qualidade de uma força em si revolucionária. Difusa desorganizadamente sobre o conjunto da população e inarticulada, atravessando as linhas tradicionais das classes sociais, esta força torna-se presa dos limites da subjetividade. A contestação toma menos por alvo a estrutura propriamente dita do sistema, seu modo de produção, do que os comportamentos e as atitudes individuais (contramestres, patrões, "eles" etc). Até mais grave, as pessoas que se encontram nos escalões mais baixos do trabalho tendem geralmente a se considerar como os únicos responsáveis por seu ‘fracasso’ em se elevar na hierarquia(1). Forma-se, assim, o sentimento de culpa que serve às maravilhas aos interesses do establishment : a auto-repressão reforça a repressão imposta do alto.

No entanto, a reprodução incessante da repressão submete-se a condições objetivas que limitam gravemente seu progresso. A aguda necessidade de aumentar a produtividade do trabalho demanda medidas e métodos que fazem aparecer possibilidades de emancipação e que, aplicadas numa larga escala, chegarão, sem dúvida, ao objetivo visado. Entre essas, figura a extensão da automação e a reorganizaçào do trabalho com o objetivo (aparente) de "humanização" que consistem em atribuir aos trabalhadores e às trabalhadoras maiores responsabilidades em seus postos, em reduzir a especialização etc. No quadro do capitalismo, esses dois métodos sofrem de limitações intrínsecas: utilizada com pleno rendimento, a automação conduzirá a uma redução da mais-valia e ao incremento do desemprego, podendo chegar a um ponto incompatível com a acumulação do capital; a reorganização "humanizadora" do trabalho desembocará, se a levarmos para além dos gadgets psicológicos promovidos pelos serviços de relações públicas das empresas, a uma forma de autogestão que entrará em colisão com a hiearquia capitalista tanto no interior quanto no exterior do mundo do trabalho.

Apenas conjugadas a tal dinâmica objetiva é que as forças ideológicas emancipadoras aparecem com suas potencialidades e suas promessas radicais. As imagens de uma existência humana qualitativamente diferente, de uma vida na qual não mais se precisará ganhar a vida porque nela haverá redução do trabalho alienado a um mínimo indispensável e, conseqüentemente, haverá a emergência de uma nova sensibilidade, de uma nova moral, a redescoberta do corpo e da natureza como poderes de enriquecimento e de proteção da vida, ¾ tudo isso aparecerá como antecipação histórica de uma sociedade submetida a um novo princípio de realidade, sociedade que será herdeira do capitalismo e que consumirá suas realizações.

Concretizadas na luta econômica, política e cultural contra a repressão, estas imagens antecipam uma revolução que deverá passar em profundidade e extensão todas as revoluçòes precedentes; que representará verdadeiramente um salto qualitativo à liberdade. Face a esta eventualidade bem real, o poder estabelecido reforça seu sistema de repressão e o estende à esfera onde se formam as carências e as satisfações do indivíduo. Assim como precisam, na cultura material, estar adaptados aos produtos que o sistema fornece, faz-se necessário restringir no domínio da cultura intelectual a parte das carências e das satisfações "transcendentes", que são inúteis e até mesmo perigosas para o establishment, o que reverte favoravelmente aos valores e aos modos de pensar necessários ao processo de reprodução social. Um ataque conjugado está atualmente em curso para alterar as escolas e as universidades quanto à formação profissional: reduzir a parte das humanidades e das ciências sociais e abaixar o nível do que não seja estritamente profissional. Desta maneira, a força de trabalho crescentemente necessária à boa marcha do sistema será levada, desde a infância, à tarefa de reproduzir em si mesma sua existência social e sua submissão ¾ pela linguagem que lhe ensinamos, pelos sentimentos que lhe inculcamos, pelas satisfações que a ensinamos a desejar.

Mas será que o monstruoso aparelho científico e pseudocientífico da repressão, unido à incessante recriação dos desejos e das satisfações destinadas a tornar a servidão tolerável poderão indefinidamente mascarar o caráter destruidor do sistema e os meios de abolí-lo? A década de 1960 deixou uma herança de recusas e de idéias novas que continuam atuantes e profundas sob a superfície da integração. O potencial radical se deslocou: o "proletariado" industrial (de "colarinho azul") não é mais o único detentor do privilégio histórico da revolução, que compartilha agora com outros grupos: a intelligentsia e, em especial, os estudantes, as mulheres, os jovens, as minorias raciais e nacionais. A ativação de tais grupos marca a ampliação da base potencial de revolta e da totalização da mudança; ou seja, a passagem da quantidade à qualidade.

Hoje, com a totalização dos controles, é o outro lado que assume a iniciativa. Um novo sistema sociail está talvez em vésperas de nascer: um regime neo ou semifascista com amplos apoios populares. Certos indícios apontam nessa direção: o estreitamento das possibilidades de expansão capitalista, o crescimento da população dependente, a aliança da Mafia com os grupos econômicos legítimos, o contágio da violência, o racismo endêmico, a concentração das armas de aniquilamento nas mãos das autoridades constituídas, a corrupção que infecta o conjunto do processo democrático.

Contra o espectro do fascismo à americana, a esquerda, corroída por suas divisões, sem organização eficaz, mantém um combate muito desigual. Sua arma principal continua sendo a educação política ¾ a contra-educação ¾ na teoria e na prática: operação longa e penosa que consiste em fazer com que as pessoas tomem consciência de que as repressões que exigem a manutenção da sociedade estabelecida não mais são necessárias e que é possível abolí-la sem, por outro lado, substituí-la por outro sistema de dominação.

 

(1) Richard Sennett e Jonathan Cobb, "The hidden injuries of class" . Nova Iorque: Vintage Books, 1972.

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