A DIALÉCTICA DO ESCLARECIMENTO
Fragmentos Filosóficos
NOTAS E ESBOÇOS
CONTRA OS QUE TÊM RESPOSTA PARA TUDO
Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: " Afinal de contas, disso eu entendo", são os statements 1 conclusivos e sólidos que são falsos.
Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há um espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada.
Adendo
A transformação da inteligência em estupidez é um aspecto tendencial da evolução histórica. Ser razoável, no sentido em que o entendia Chamberlain, quando, em Godesberg, chamava as exigências de Hitler de unreasonable2, significa que é preciso respeitar a equivalência entre dar e tomar. Essa concepção da razão foi elaborada com base na troca. Os fins só devem ser alcançados através de uma mediação, por assim dizer, através do mercado, graças à pequena vantagem que o poder consegue tirar observando a regra do jogo: concessões em troca de concessões. A inteligência é superada tão logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e passa à apropriação imediata. O meio da inteligência tradicional burguesa, a discussão. se desfaz. Os indivíduos já não podem mais conversar e sabem disso: por isso fizeram do jogo uma instituição séria, responsável e exigindo a utilização de todas as forças, de tal sorte que, por um lado, o diálogo não é mais possível e, por outro, nem por isso é preciso se calar. As coisas não se passam de modo muito diferente numa escala maior. Não é fácil falar com um fascista. Quando o outro toma a palavra, ele reage interrompendo-o com insolência. Ele é inacessível à razão porque só a enxerga na capitulação do outro.
A contradição que consiste na estupidez da inteligência. é uma contradição necessária. Pois a ratio burguesa tem que pretender a universalidade e, ao mesmo tempo, desenvolver-se no sentido de restringi-Ia. Assim como, na troca, cada um recebe sua parte, daí resultando, porém, a injustiça social, assim também a forma reflexiva da economia da troca, a razão dominante, é também justa, universal e, no entanto, particularista, isto é, o instrumento do privilégio na igualdade. É a ela que o fascista apresenta a conta. Ele representa abertamente o particular e revela assim as limitações da própria ratio, que insiste injustificadamente em sua universalidade. O facto então de que, de repente, os inteligentes são os estúpidos prova para a razão que ela é a irrazão.
Mas o fascista também é atormentado por essa contradição. Pois a razão burguesa, de facto, não é meramente particular, mas também universal, e sua universalidade cai de surpresa sobre o fascismo, quando ele a renega. Os que tomaram o poder na Alemanha eram mais inteligentes do que os liberais, e mais estúpidos. O progresso em direcção à nova ordem recebeu um amplo apoio daqueles cuja consciência não acompanhou o progresso, ou seja, dos falidos, dos sectários, dos tolos. Eles estão a salvo dos erros, na medida em que seu poder impede toda competição. Mas, na competição dos Estados, os fascistas não só são igualmente capazes de cometer erros, mas também, com suas qualidades como miopia intelectual, obstinação, desconhecimento das forças económicas e, sobretudo, com a incapacidade de ver o negativo e levá-lo em conta na avaliação da situação em seu conjunto, também contribuem subjectivamente para a catástrofe que, no íntimo, sempre esperaram.
Neste país, não há nenhuma diferença entre o destino económico e o próprio homem. Todo o mundo é o que é sua fortuna, sua renda. sua posição, suas chances. Na consciência dos homens, a máscara económica e o que está debaixo dela coincidem nas mínimas reguingas. Cada um vale o que ganha, cada um ganha o que vale. Ele aprende o que ele é através das vicissitudes de sua vida económica. Ele não se conhece de outro modo. Se a crítica materialista da sociedade objectou outrora ao idealismo que não é a consciência que determina o ser, mas é o ser que determina a consciência, que a verdade sobre a sociedade não será encontrada nas concepções idealistas que ela elaborou sobre si mesma, mas em sua economia, a autoconsciência dos contemporâneos acabou por rejeitar semelhante idealismo. Eles julgam seu próprio eu segundo o valor de mercado e aprendem o que são a partir do que se passa com eles na economia capitalista. Seu destino, por mais triste que seja, não lhes é exterior, eles o reconhecem. Despedindo-se o chinês,
"Disse com a voz velada de tristeza: Meu amigo
a sorte não me sorriu neste mundo.
Para onde vou? Vou para as montanhas,
Busco sossego para meu coração solitário."
("Sprach mil umjlorler Stimme: Du mein Freund Mir war das G/iick in dieser Well nicht ho/d. Wohin ich geh? lch wandere in die Berge. Ich suche Ruhe jiir mein einsam Herz.")
I am a failure, diz o norte-americano. - And that is that.3
CONVERSÃO DA IDEIA EM DOMINAÇAO
A história antiga dos países exóticos revela às vezes tendências semelhantes às da história mais recente e mais familiar, e que se tornam particularmente nítidas com a distância.
Em sua explicação do Içâ-Upanishad, Deussen 4 observa que o progresso que o pensamento indiano alcançou nessa obra relativamente a outras mais antigas é semelhante ao progresso de Jesus, segundo o Evangelho de São Mateus,5 relativamente a São João Baptista e ao progresso dos estóicos relativamente aos cínicos. Essa observação, contudo, é historicamente unilateral, porque as ideias intransigentes de São João Baptista e dos cínicos - exactamente como as concepções relativamente às quais os primeiros versos do IçâUpanishad deveriam constituir um progresso6 - mais se parecem com as dissidências de esquerda de cliques e partidos poderosos, do que com as linhas principais dos movimentos históricos de onde teriam derivado posteriormente a filosofia europeia, o cristianismo e a vigorosa religião védica. Como relata o próprio Deussen, o IçâUpanishad é o texto que as colectâneas indianas costumam colocar em primeiro lugar, por conseguinte, muito antes dos textos dos quais deve representar uma superação. Não obstante, essa primeira parte contém de facto algo como uma traição do radicalismo juvenil, da oposição revolucionária à realidade dominante.
O passo que conduziu ao vedantismo, ao estoicismo e ao cristianismo, movimentos que se mostraram capazes de assumir uma forma organizada, consistiu na decisão de participar da actividade social com a elaboração de um sistema teórico unitário. O que o tornou possível foi a doutrina segundo a qual a salvação da alma não é prejudicada pelo engajamento activo na vida, desde que se adopte uma atitude conveniente. O cristianismo, é verdade, só chegou a esse ponto com a doutrina de São Paulo. A Ideia que se distancia da ordem existente transforma-se em religião. Os intransigentes são censurados. Eles se distanciaram do "desejo de ter filhos, de possuir bens do mundo e passaram a vagar pelas cidades como mendigos. Pois o desejo de ter filhos é o desejo de possuir bens, e o desejo de possuir bens é o desejo do mundo; e ambos não passam de um vão desejo".7 Quem assim fala pode estar dizendo a verdade, como dizem os civilizadores, mas não está acompanhando a marcha da vida social. É por isso que se tornaram loucos. De facto, eles se pareciam com São João Baptista, que "se vestia com um manto de pele de camelo e se cingia com um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre".8 "Os cínicos", diz Hegel, "têm pouca formação filosófica e não chegaram a desenvolver um sistema, uma ciência."9 Ele qualifica seus sucessores de "mendigos obscenos e descarados".10
Os intransigentes de que ainda há notícia na história dispunham de alguma forma de organização de seus adeptos, pois, de outro modo, seus nomes não teriam sequer chegado até nós. Eles montaram, pelo menos, parte de uma doutrina sistemática ou de regras de comportamento sistemáticas. Mesmo os Upanishads mais radicais, atacados pelo primeiro, eram versos e sentenças rituais elaborados por confrarias religiosas.11 João Baptista não chegou a fundar uma religião, mas fundou uma oróem.l2. Os cínicos criaram uma escola filosófica; seu fundador, Antístenes, chegou a delinear uma teoria do Estado.13 Os sistemas teóricos e práticos desses marginais da história não são, todavia, tão rígidos e centralizados, mas se distinguem dos sistemas bem-sucedidos pelo elemento de anarquia que contêm. Para eles, as Ideias e o indivíduo valem mais do que a administração e a colectividade. É por isso que provocam a fúria. São os cínicos que Platão, o defensor da dominação, tem em vista, quando brada contra a equiparação das funções de um rei com as de um simples pastor e contra uma frouxa organização da humanidade sem fronteiras nacionais, tachando-as de Estado de porcos.14 Os indivíduos que não transigem podem estar dispostos a se unir e cooperar, mas foram incapazes de constituir uma sólida hierarquia fechada para baixo. Nem em sua teoria, que carecia de unidade e coerência, nem em sua prática, que carecia de coordenação e, por isso, de ímpeto, seu modo de ser reflectia o mundo tal como realmente era.
Eis a diferença formal entre os movimentos radicais e os movimentos conformistas na religião e na filosofia: não é o conteúdo isolado que a determina. Assim, por exemplo, não era absolutamente pela ideia de ascese que se diferenciavam. A seita do asceta Gotama conquistou o mundo asiático. Pois, em sua vida, ele demonstrou um grande talento de organização. Mesmo se não excluiu os humildes de sua doutrina, como o reformador Cankara,15 ele reconhecia expressamente o direito de propriedade sobre outros homens e se vangloriava dos "filhos de nobres estirpes" que entravam para sua ordem, onde os párias "aparentemente não passavam de uma rara exceção".16 Desde o início, os discípulos eram repartidos segundo o modelo bramânico.17 O ingresso de aleijados, doentes, criminosos e muitos outros era proibido.18 Perguntava-se aos postulantes se tinham lepra, escrófulas, lepra branca, tuberculose, epilepsia e mais ainda: "Você é homem? Você é seu próprio senhor? Você não tem dívidas? Você não está a serviço do rei?" etc. Em consonância com o patriarcalismo brutal da 1ndia, a primitiva ordem budista mostrava grande relutância em aceitar as mulheres como discípulas. Elas tinham que se submeter aos homens e, de facto, permaneciam tuteladas.19 A ordem inteira gozava do favor dos governantes e se integrava perfeitamente na vida indiana.
O ascetismo e o materialismo, esses dois contrários, são ambos ambíguos. O ascetismo, enquanto recusa de colaborar com uma ordem existente má, une-se, em face da opressão, às reivindicações materiais das massas, do mesmo modo que o ascétismo, enquanto meio de disciplina imposta pelas cliques, visa a adaptação à injustiça. A acomodação materialista à realidade existente, o egoísmo particular, estiveram sempre associados à renúncia, ao passo que o sonhador antiburguês visa além da realidade existente, buscando num sentido bem materialista a terra onde corre o leite e o mel. No verdadeiro materialismo, encontramos superado o ascetismo; e, no verdadeiro ascetismo, o materialismo. A história dessas antigas religiões e escolas, assim como a história dos partidos e revoluções modernas, pode nos ensinar, ao contrário, a lição que o preço da sobrevivência é a colaboração prática, a transformação da Ideia em dominação.
SOBRE A TEORIA DOS FANTASMAS
A teoria de Freud, segundo a qual a crença nos fantasmas provém dos maus pensamentos dos vivos relativamente aos mortos, mais precisamente, da lembrança de antigos desejos de morte, é excessivamente esquemática. O ódio pelos mortos é, ao mesmo tempo, ciúme e sentimento de culpa. Quem ficou para trás sente-se abandonado e imputa sua dor ao morto, tomando-o como sua causa. N a etapa da humanidade onde a morte ainda aparecia como um prolongamento da vida, o abandono na morte parece necessariamente uma traição, e até mesmo a pessoa esclarecida não costuma estar inteiramente liberta dessa antiga crença. A consciência não consegue pensar a morte como um nada absoluto, pois o nada absoluto não é algo que se pense. E quando o fardo da vida pesa de novo sobre os que ficaram, é compreensível que a situação do morto lhe pareça como preferível. A maneira pela qual muitas pessoas reorganizam a vida após a morte de um parente, dedicando um culto activo ao morto ou, ao contrário, racionalizando o esquecimento como prova de tato, é a contrapartida moderna da aparição de fantasmas, que, não sublimada, continua a grassar no espiritismo. Só a perfeita conscientização do horror que temos pelo aniquilamento estabelece um verdadeiro relacionamento com os mortos: a unidade com eles. Pois, como eles, somos vítimas das mesmas condições e da mesma esperança decepcionada.
Adendo
O transtorno das relações com os mortos - o facto de que são esquecidos e embalsamados - é um dos sintomas da doença que afecta hoje nossa experiência. Quase se poderia dizer que é o próprio conceito da vida humana, enquanto unidade da história de um homem, que se tornou caduco: a vida do indivíduo passa a ser definida por seu mero contrário, o aniquilamento, mas perdeu toda coerência, toda continuidade da lembrança consciente e da memória involuntária, perdeu todo sentido. Os indivíduos se reduzem a uma simples sucessão de instantes punctuais que não deixam nenhum vestígio, ou melhor: seu vestígio é por eles odiado como irracional, supérfluo, no sentido mais literal: superado. Do mesmo modo que todo livro que não tenha sido publicado recentemente e toda tentativa de pensar a história fora do sector especializado da ciência histórica, enerva os tipos contemporâneos, assim também o que passou enfurece os homens. O que um indivíduo foi e experimentou no passado é anulado em face daquilo que ele agora é, daquilo que ele agora tem e eventualmente daquilo para o que pode agora ser utilizado. O primeiro conselho, ao mesmo tempo bem-intencionado e ameaçador, que se costuma dar ao emigrante e que consiste em esquecer todo o passado, já que não se pode transferi-lo, e anular toda a vida pregressa para começar sem mais cerimónias uma nova vida esse conselho visa tão-somente infligir verbalmente ao intruso espectral a mesma violência que as pessoas há muito aprenderam a infligir a si próprias. As pessoas recalcam a história dentro de si mesmas e dentro das outras, por medo de que ela possa recordar a ruína de sua própria vida, ruína essa que consiste em larga medida no recalcamento da história. O que se passa com todos os sentimentos, ou seja, a proscrição de tudo aquilo que não tenha valor mercantil, também se passa da maneira mais brutal com aquilo de que não s~ pode sequer obter a reconstituição psicológica da força de trabalho: o luto. O luto torna-se a ferida que marca a civilização, a sentimentalidade associal que revela que ainda não se conseguiu comprometer inteiramente os homens com o reino dos fins. Por isso o luto, mais do que qualquer outra coisa, se vê desfigurado, conscientemente transformado numa formalidade social - coisa que o belo cadáver sempre foi para os homens endurecidos. No funeral home e no crematório, onde o morto é transformado em cinzas transportáveis, numa incómoda propriedade, é de facto muito pouco apropriado aos tempos atuais se descontrolar, e aquela menina que, ao descrever orgulhosamente o funeral de primeira classe dedicado à sua avó, comentou: "a pity that daddy lost control",2° porque este derramara duas ou três lágrimas, exprime com perfeição a situação. De facto, o que se faz com os mortos é rogar o que o~ antigos judeus consideravam a pior das pragas: não se lembrar deles. Em face dos mortos os homens desabafam o desespero de não serem mais capazes de se lembrarem de si próprios.
QUAND MÊME 21
O que levou os homens a superar a própria inércia e a produzir obras materiais e espirituais foi a pressão externa. Nisto têm razão os pensadores, de Demócrito a Freud. A resistência da natureza externa, a que se reduz em última análise a pressão, prolonga-se no interior da sociedade através das classes e atua sobre cada indivíduo, desde sua infância, na dureza de seus semelhantes. Os homens são suaves, quando desejam alguma coisa dos mais fortes, e brutais, quando o solicitante é mais fraco do que eles. Eis aí, até agora, a chave para penetrar na essência da pessoa na sociedade.
A conclusão de que o terror e a civilização são inseparáveis, que é a conclusão tirada pelos conservadores, é bem fundamentada. O que poderia levar os homens a se desenvolver, de modo a se tornarem capazes de elaborar positivamente estímulos complicados, se não sua própria evolução permeada de esforços e desfechada pela resistência externa? Primeiro, a resistência motivadora se encarna no pai, depois ela cria mil cabeças: o professor, o superior hierárquico, o cliente, o concorrente, os representantes dos poderes sociais e estatais. Sua brutalidade estimula a espontaneidade individual.
A possibilidade de dosar no futuro a severidade, a possibilidade de substituir por sanatórios os castigos sangrentos através dos quais a humanidade foi domada ao longo dos milénios, tudo isso parece um sonho. A coerção simulada é impotente, Foi sob o signo do carrasco que se realizou a evolução da cultura; nisso estão de acordo o Génesis, que narra a expulsão do paraíso, e as Soirées de SaintPétersbourg. Sob o signo do carrasco estão o trabalho e o prazer. Querer negá-lo significa esbofetear toda a ciência e toda a lógica. Não se pode abolir o terror e conservar a civilização. Afrouxar o primeiro já significa o começo da dissolução. As mais diferentes conclusões podem ser tiradas daí: da adoração da barbárie fascista à busca de refúgio nos círculos do inferno. Mas há uma outra: zombar da lógica quando ela está contra a humanidade.
PSICOLOGIA ANIMAL
Um cachorro enorme atravessa a highway22. Ele cai sob as rodas de um carro, ao prosseguir confiante seu caminho. Seu ar tranquilo mostra que ele é, em outras circunstâncias, objecto de maiores cuidados, um animal doméstico a quem não se faz nenhum mal. Mas será que os filhos da alta burguesia, a quem não se faz nenhum mal, têm no rosto um ar tranquilo? Eles não foram objecto de menores cuidados do que o cão que agora é atropelado.
PARA VOLTAIRE
Sua razão é unilateral, sussurra a razão unilateral, você foi injusto com o poder. Você trombeteou aos quatro ventos a ignomínia da tirania - pateticamente, plangentemente, sarcasticamente, baruIhentamente. Mas o bem que o poder criou, você omite. Sem a segurança que só o poder pode instaurar, ele jamais poderia ter existido. Foi sob as asas do poder que a vida e o amor brincaram, foram elas que arrancaram à natureza hostil a felicidade de que você desfruta. - O que a apologética sugere é verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Apesar de todos os feitos do poder, só o poder pode cometer a injustiça, pois só é injusto o julgamento seguido da execução, não o discurso do advogado que não é aceito. O discurso só participa da injustiça geral na medida em que ele próprio visa a opressão e defende o poder em vez de defender a impotência. - Mas o poder, sussurra de novo a razão unilateral, é representado por homens. Ao expor o poder, você faz desses homens um alvo. E depois deles virão talvez outros piores. - A mentira diz a verdade. Quando os assassinos fascistas estão às portas, não se deve açular o povo contra o governo fraco. Mas nem mesmo a aliança com o poder menos brutal tem por consequência lógica a necessidade de se calar sobre as infâmias. O risco de prejudicar a boa causa com a denúncia da injustiça que nos protege do diabo foi sempre, menor do que a vantagem que o diabo tirava quando se deixava a seu cargo a denúncia da injustiça. A que ponto deve ter chegado uma sociedade na qual só os crápulas ainda dizem a verdade e onde Goebbels mantém viva a lembrança dos linchamentos alegremente perpetrados! Não é o bem, mas o mal, que é objecto da teoria. Ela já pressupõe a reprodução da vida nas formas determinadas em cada caso. Seu elemento é a liberdade, seu tema a opressão. Quando a linguagem se torna apologética, ela já está corrompida; por essência, ela não pode ser nem neutra nem prática. - Será que você não pode mostrar o lado bom e proclamar como princípio o amor , ao invés da amargura infinita? - Só há uma expressão para a verdade: o pensamento que nega a injustiça. Se a insistência nos lados bons não for superada no todo negativo, ela transfigurará seu contrário: a violência. Com as palavras, posso intrigar, propalar, sugerir; é por aí que elas se vêem envolvidas como toda acção na realidade, e é isso também a única coisa que a mentira compreende. Ela insinua que até mesmo a recusa da ordem existente tem lugar a serviço de formas incipientes da violência, burocracias e despotismos concorrentes. Em seu medo inominável, ela só pode e só quer enxergar o que ela própria é. Tudo o que pertence a seu meio, isto é, à linguagem usada como simples instrumento, identifica-se à mentira, assim como as coisas se identificam umas às outras nas trevas. Mas, por mais verdadeira que seja a suposição de que não há nenhuma palavra de que a mentira não possa acabar se servindo, não é através delas que sua bondade resplandece, mas unicamente na dureza do pensamento em face do poder. O ódio intransigente pelo terror perpetrado contra a última das criaturas constitui a legítima gratidão dos que foram poupados. A invocação do sol é idolatria. Só o olhar voltado para a árvore ressecada por seu ardor faz pressentir a majestade do dia, que não precisa abrasar o mundo ao iluminá-lo.
CLASSIFICAÇAO
Os conceitos universais, formados pelas diversas ciências com base na abstracção ou na axiomatização, constituem o material da representação, assim como os nomes que servem para designar coisas individuais. A luta contra os conceitos universais não tem sentido. Mas isso não nos diz o que pensar da dignidade do universal. O que é comum a muitos indivíduos, ou o que reaparece sempre no indivíduo, não precisa absolutamente de ser mais estável, mais eterno, mais profundo do que o particular. A escala dos géneros não é a escala da importância. Foi este justamente o erro dos Eleatas e de todos os que os seguiram, Platão e Aristóteles sobretudo.
O mundo é único no tempo. A simples repetição dos aspectos que reaparecem sempre de novo como os mesmos parece mais uma vã e compulsiva ladainha do que a palavra salvadora. A classificação é a condição do conhecimento, não o próprio conhecimento, e o conhecimento por sua vez destrói a classificação.
AVALANCHA
No presente não há mais nenhuma mudança. A mudança das coisas é sempre a mudança para melhor. Mas quando, em tempos como os nossos, a penúria é extrema, os céus se abrem e despejam seu fogo sobre aqueles que, de qualquer modo, já estão perdidos.
O que era comumente designado como o social, o político, é a primeira coisa a dar essa impressão. A primeira página dos diários que, outrora, pareciam estranhos e vulgares às mulheres e crianças felizes - o jornal evocava as cervejarias e as fanfarronadas -, a primeira página e suas manchetes acabaram por invadir as casas como uma verdadeira ameaça. O rearmamento, os acontecimentos de ultramar, a tensão no Mediterrâneo, e não sei que outros conceitos grandiloquentes acabaram por mergulhar as pessoas numa verdadeira angústia até explodir a Primeira Guerra Mundial. Surgiu então, com cifras cada vez mais vertiginosas, a inflação. Quando esta parou de crescer, isso não significou nenhuma mudança, mas uma desgraça ainda maior, racionalização e desemprego. Quando as cifras eleitorais de Hitler começaram a crescer, modestamente a princípio, mas insistentemente, já estava claro que era o movimento da avalancha. Os números eleitorais são típicos desse fenómeno. Quando, à noitinha das eleições pré-fascistas, começam a chegar os resultados das diferentes regiões do país, um oitavo, um dezasseis avos já antecipa o total. Se dez ou vinte distritos tomaram em bloco uma direcção, os cem restantes não se oporão a ela. Já é um estado de espírito uniforme. A essência do mundo coincide com a lei estatística pela qual sua superfície é classificada.
Na Alemanha, o fascismo venceu sob uma ideologia crassamente xenófoba, anticultural e colectivista. Agora que ele está devastando a terra, os povos têm que lutar contra ele, não há saída. Mas quando tudo houver acabado, não é preciso que o espírito da liberdade se difunda sobre a Europa, suas nações podem se tornar tão xenófobas, hostis à cultura e pseudocoletivistas como era o fascismo do qual tiveram que se defender. Mesmo a sua derrota não interrompe necessariamente o movimento da avalancha.
O princípio da filosofia liberal era: "Não apenas - Mas também." Hoje parece vigorar o "Ou -Ou", mas como se o pior já houvesse sido escolhido.
ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇAO
A afirmação que o meio de comunicação isola não vale apenas no domínio cultural. Não apenas a linguagem mentirosa do locutor de rádio se sedimenta no cérebro das pessoas como a imagem da linguagem e impede-as de falar umas com as outras, não apenas o louvor da Pepsi-Cola abafa o ruído do desmoronamento dos continentes, não apenas o modelo espectral dos heróis do cinema se projecta sobre o abraço dos adolescentes e mesmo sobre o adultério. O progresso separa literalmente as pessoas. O pequeno guichê da estação ou do banco possibilitava ao caixa cochichar com o colega e partilhar com ele seus pequenos segredos. As janelas de vidro dos escritórios modernos, os salões gigantescos onde inúmeros empregados trabalham em comum, podendo ser facilmente vigiados pelo público e pelos chefes, não permitem mais nem conversas particulares, nem idílios. Mesmo nas repartições, o contribuinte está protegido do desperdício de tempo dos servidores. Mas os meios de comunicação separam as pessoas também fisicamente. A ferrovia foi substituída pelos automóveis. O carro próprio reduz os contactos de viagem a hitchhikers23 algo inquietantes. As pessoas viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente isoladas umas das outras. Em compensação, só se conversa num carro o que se discute em outro; a conversa da família isolada está regulada pelos interesses práticos. Assim como toda família com uma renda determinada gasta a mesma percentagem com alojamento, cinema, cigarros, exactamente como a estatística prescreve, assim também os temas são esquematizados segundo as classes de automóveis. Quando se encontram, aos domingos ou viajando, em hotéis onde as acomodações e os cardápios são idênticos em cada faixa de preços, os hóspedes descobrem que se tornaram, com o isolamento, cada vez mais semelhantes. A comunicação cuida da assimilação dos homens isolando-os.
PARA UMA CRITICA DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA
Não é a espécie humana que constitui, como já se disse, um desvio na história natural, uma anomalia ou má-formação devida à hipertrofia do cérebro. Isso vale apenas para a razão em certos indivíduos e talvez, em curtos períodos, para alguns países nos quais a economia deixou uma margem de aço a semelhantes indivíduos. O órgão cerebral, a inteligência humana, é bastante robusto para constituir uma época regular da história terrestre. A espécie humana juntamente com suas máquinas, produtos químicos, forças organizatórias - e por que não deveríamos atribuí-Ias à espécie humana assim como os dentes aos ursos, já que servem aos mesmos fins e só funcionam melhor? - é, nesta época, o dernier cri24 da adaptação. Os homens não apenas superaram seus antecessores imediatos, mas já os exterminaram mais radicalmente do que qualquer outra espécie, sem excluir os sáurios carnívoros.
Comparado a isso, parece uma ideia extravagante a pretensão de construir a história universal, como fez Hegel, em função de categorias como liberdade e justiça. Pois essas categorias provêm dos indivíduos anómalos, os indivíduos que, do ponto de vista do todo, nada significam, a não ser que ajudaram a provocar condições sociais transitórias em que se fabricam muitas máquinas e produtos químicos, úteis para fortalecer a espécie e subjugar as outras. Do ponto de vista dessa história séria, todas as ideias, proibições, religiões e credos políticos são interessantes apenas na medida em que, resultando de diversas condições, aumentam ou diminuem as chances da espécie humana sobre a terra ou no universo. Libertar os burgueses da injustiça do passado feudalista e absolutista serviu, através do liberalismo, para desencadear o maquinismo, assim como a emancipação da mulher desemboca em seu adestramento como parte das forças militares. O espírito é uma monstruosidade e tudo o que há de bom em sua origem e em sua existência está inextricavelmente envolvido neste horror. O soro que o médico administra à criança doente se deve a um ataque contra uma criatura indefesa. As expressões de carinho dos amantes assim como os mais sagrados símbolos do cristianismo ainda lembram o prazer de comer a carne do cordeiro, do mesmo modo que este prazer ainda lembra o respeito ambivalente pelo animal totêmico. Até mesmo a aptidão para a cozinha, a igreja e o teatro é uma consequência da divisão refinada do trabalho que se faz a expensas da natureza dentro e fora da; sociedade humana. É no aumento retroactivo dessa organização que reside a função histórica da cultura. Por isso, o pensamento genuíno que se desliga dessa função, isto é, a razão em sua forma. pura, assume os traços da loucura que os autóctones sempre notaram. Se essa razão conquistasse uma vitória decisiva na humanidade, a hegemonia da espécie estaria ameaçada. A teoria do desvio tornar-se-ia finalmente verdadeira. Mas essa teoria, que pretendia cinicamente servir à crítica da filosofia da história antropocêntrica, é ela própria excessivamente antropocêntrica para se impor como correcta. A razão desempenha o papel do instrumento de adaptação e não do tranquilizante, como poderia dar a entender o uso que o indivíduo às vezes faz dela. Sua astúcia consiste em fazer dos homens feras dotadas de um poder cada vez mais extenso, e não em estabelecer a identidade do sujeito e do objecto.
Uma construção filosófica da história universal teria que mostrar como, apesar de todos os desvios e resistências, a dominação consequente da natureza se impõe de uma maneira cada vez mais decidida e passa a integrar toda a interioridade humana. Desse ponto de vista, dever-se-iam deduzir também as formas da economia, da dominação, da cultura. É só no sentido do salto da quantidade para a qualidade que a ideia do super-homem poderia ser aplicada. Do mesmo modo que se poderia chamar o aviador, capaz de, em poucos voos, expurgar os últimos continentes dos últimos animais livres com um produto tóxico, de um super-homem comparado ao troglodita, assim também poderia surgir um superanfíbio humano perto do qual o aviador actual. pareceria uma andorinha inofensiva. É duvidoso que possa surgir na história natural uma genuína espécie imediatamente superior ao homem. Pois o que há de correcto no antropomorfismo é que a história natural, por assim dizer, não contava com o lance de sorte que ela logrou criando o homem. A capacidade de destruição do homem ameaça tornar-se tão grande que, quando vier a se esgotar, esta espécie terá feito tabula rasa da natureza. Ou bem há de se dilacerar a si mesma, ou bem arrastará consigo para a destruição a fauna e a flora inteiras da terra, e se a terra ainda for bastante jovem, a coisa toda - para variar uma frase célebre ~ deve começar de novo a um nível muito mais baixo.
Quando a filosofia da história transpôs as ideias humanas como forças atidas para dentro da própria história e fez com que esta terminasse com o triunfo dessas ideias, elas foram privadas da ingenuidade que faz parte de seu conteúdo. O papel ridículo que fizeram, quando a economia, isto é, a força, não estava de seu lado, é o ridículo de todos os fracos, e é nele que os autores, sem querer, se identificam com a opressão que pretendiam abolir. Na filosofia da história repete-se "o que aconteceu no cristianismo: o bem, que na verdade permanece entregue ao sofrimento, é disfarçado como uma força determinando o curso da história e triunfando no final. Ele é divinizado como espírito do mundo ou, pelo menos, como uma lei imanente. Mas, desse modo, não apenas a história se vê directamente convertida em seu contrário, mas a própria Ideia, que devia romper a necessidade, o curso lógico do acontecer, é desfigurada. O risco do desvio é evitado. A impotência erroneamente tomada pelo poder é mais uma vez denegada mediante essa elevação e, por assim dizer, subtraída à lembrança. Assim, o cristianismo, o idealismo e o materialismo, que, a rigor, também contêm a verdade, têm também a sua culpa pelas patifarias cometidas em seu nome. Como mensageiros do poder (ainda que do poder do bem) , eles se tornaram eles próprios potências históricas dotadas da força de organização e desempenharam enquanto tais seu papel sanguinolento na história real da espécie humana: o papel de instrumentos da organização.
Visto que a história enquanto correlato de uma teoria unitária, como algo de construível, não é o bem, mas justamente o horror, o pensamento, na verdade, é um elemento negativo. A esperança de uma melhoria das condições, na medida em que não é uma mera ilusão, funda-se menos na asseveração de que e1as seriam as condições garantidas, estáveis e definitivas, do que precisamente na falta de respeito por tudo aquilo que está tão solidamente fundado no sofrimento geral. A paciência infinita, o impu1so delicado e inextinguível que leva a criatura a buscar a expressão e a luz, que parece abrandar e apaziguar em si mesma a violência da evolução criadora, não prescreve, como as filosofias racionais da história, nenhuma práxis determinada como a práxis salvadora, nem sequer a não-resistência. O primeiro clarão da razão, que se anuncia nesse impulso e se reflecte no pensamento recordante do homem, encontrará, mesmo em seu dia mais feliz, sua contradição insuperável: a fatalidade que a razão sozinha não consegue mudar .
MONUMENTOS DA HUMANIDADE
A humanidade sempre se sentiu mais à vontade na França do que em qualquer outro lugar. Mas os franceses não o sabiam. mais. O que se encontrava em seus livros era ideologia, facilmente reconhecível por qualquer um. O que havia de melhor levava uma vida separada: na inflexão da voz, no torneio da frase, na cozinha refinada, nos bordéis e nos mictórios de ferro fundido. Mas o governo Blum já havia declarado guerra a semelhante respeito do indivíduo, e os próprios conservadores fizeram muito pouco para proteger seus monumentos.
FRAGMENTO DE UMA TEORIA DO CRIMINOSO
...Assim como o criminoso, a pena de privação da liberdade também era uma instituição burguesa. Na Idade Média, encarceravam-se os infantes reais que simbolizassem uma incómoda pretensão dinástica. O criminoso, em compensação, era torturado até a morte, para incutir na massa da população o respeito pela ordem e pela lei, porque o exemplo da severidade e da crueldade educa os severos e os cruéis para o amor. A pena de prisão regular pressupõe uma crescente necessidade de força de trabalho e reflecte o modo de vida burguês como sofrimento. As fileiras de células na moderna penitenciária representam mônadas no autêntico sentido de Leibniz. " As mônadas não têm janelas pelas quais algo possa entrar ou sair. Os acidentes não podem se desprender ou se mover fora das substâncias, como o faziam outrora as formas sensíveis dos filósofos escolásticos. Nem a substância nem o acidente podem penetrar de fora para dentro em uma mônada."25 As mônadas não têm nenhuma influência directa umas sobre as outras; quem regula e coordena sua vida é Deus, vale dizer, a Direção.26 A absoluta solidão, o retomo forçado ao próprio eu, cujo ser se reduz à elaboração de um material no ritmo monótono do trabalho, delineiam como um espectro horrível a existência do homem no mundo moderno. O isolamento radical e a redução radical ao mesmo nada sem esperança são idênticos. O homem na penitenciária é a imagem virtual do tipo burguês em que ele deve se transformar na realidade. Os que não o fizerem lá fora serão forçados a isso aí dentro numa terrível pureza. Justificar a existência de penitenciárias com a necessidade de separar o criminoso da sociedade, ou mesmo de regenerá-Io, não atinge o âmago da questão. Elas são a imagem do mundo do trabalho burguês levado às últimas consequências, imagem essa que o ódio dos homens coloca no mundo como um símbolo contra a realidade em que são forçados a se transformar . O indivíduo fraco, atrasado, animalizado tem que sofrer, qualificado, uma forma de vida à qual se resigna sem amor; encamiçada, a violência introvertida repete-se nele. O criminoso que, ao cometer seu crime, pôs sua autoconservação acima de tudo, tem na verdade um eu mais fraco e mais instável, e o criminoso contumaz é um débil.
Os prisioneiros são doentes. Sua fraqueza colocou-os numa situação que já havia atacado e continua a atacar o corpo e o espírito. A maioria deles já estava doente quando cometeram o crime que os jogou na prisão: por causa de sua constituição e das circunstâncias. Outros agiram como teria agido qualquer pessoa sadia na mesma constelação de estímulos e motivos, só não tiveram sorte. Os restantes eram mais cruéis e ruins do que a maioria dos homens livres, tão ruins e cruéis em sua pessoa quanto os donos fascistas do mundo pela posição que ocupam. O acto do criminoso comum é obtuso, pessoal, imediatamente destrutivo. É provável que a substância viva, que é a mesma em cada um, não conseguisse fugir a uma pressão da constituição física e do destino individual com a mesma força da pressão que levou o criminoso a esses actos extremos, de tal sorte que qualquer um de nós teria agido do mesmo modo que o assassino, não houvesse um feliz encadeamento de circunstâncias nos concedido a graça do discernimento. E agora, como prisioneiros, eles são apenas indivíduos que sofrem, e a punição que lhes é infligida é um castigo cego, um acontecimento alheio à sua vontade, uma desgraça como o câncer ou o desmoronamento de uma casa. A prisão é uma longa moléstia. ~ o que revela a expressão dos prisioneiros, o andar cauteloso, a maneira complicada de pensar. Como os doentes, eles só conseguem falar de sua doença.
Quando os limites entre o banditismo respeitável e o banditismo ilegal são objectivamente fluidos, como acontece hoje em dia, os tipos psicológicos também se confundem. Mas, enquanto os criminosos eram doentes, como no século dezanove, a prisão representou o inverso de sua fraqueza. A energia necessária para se destacar como um indivíduo do mundo ambiente e, ao mesmo tempo, para estabelecer uma ligação com ele, através das formas de comunicação autorizadas, e assim nele se afirmar estava corroída no criminoso. Ele representava uma tendência profundamente arraigada no ser vivo e cuja superação é um sinal de evolução: a tendência a perder-se em vez de impor-se activamente no meio ambiente, a propensão a se largar, a regredir à natureza. Freud denominou-a pulsão de morte, Caillois le mimétisme.27 Um vício semelhante atravessa tudo o que se opõe ao progresso inflexível, desde o crime, que é um atalho evitando as formas atuais do trabalho, até a obra de arte sublime. A moleza com respeito às coisas, sem a qual não existe a arte, não está tão afastada da violência crispada do criminoso. A incapacidade de dizer "não" que arrasta a adolescente à prostituição determina igualmente a carreira do criminoso. No criminoso, é a negação desprovida da resistência. É contra essa fluidez, que, sem consciência determinada, tímida e impotente (mesmo em sua forma mais brutal) , imita e ao mesmo tempo destrói a civilização impiedosa, que esta eleva as sólidas muralhas das casas de detenção e de correcção, que é seu ideal fixado na pedra. Assim como, segundo Tocqueville, as repúblicas burguesas, ao contrário das monarquias, não violentam o corpo, mas vão directo à alma, assim também os castigos dessa espécie atacam a alma. Seus supliciados não morrem mais amarrados à roda após longos dias e noites, mas apodrecem espiritualmente, como um exemplo invisível e silencioso, dentro dos enormes prédios das prisões, que só o nome, na prática, separa dos manicómios.
O fascismo absorve os dois. A concentração do comando sobre a produção inteira traz de volta a sociedade ao nível da dominação directa. Com o desaparecimento da necessidade de fazer um rodeio passando pelo mercado no interior das nações, desaparecem também as mediações espirituais, entre elas o direito. O pensamento que se desenvolvera na transação, como resultado do egoísmo forçado a negociar, se reduz ao planejamento da apropriação violenta. O fascista capaz de genocídios surgiu como a pura essência do fabricante alemão, só o poder distingue-o ainda do criminoso. O rodeio tornou-se desnecessário. O direito civil, que continuava a funcionar para dirimir os litígios dos empresários que sobreviviam à sombra da grande indústria, tornou-se uma espécie de tribunal arbitral, uma forma de justiça dispensada aos inferiores e não levando mais em conta os interesses dos concernidos, em suma, o puro terror. Mas era através da protecção legal, agora em vias de desaparecer, que a propriedade era definida. O monopólio, enquanto forma acabada da propriedade privada, destrói esse conceito. Do contrato social e político, que o fascismo substitui por tratados secretos nas relações entre as potências, o fascismo só conserva no interior do país a coerção do universal que seus servidores impõem espontaneamente ao resto da humanidade. No Estado total, o crime e o castigo são liquidados como resíduos supersticiosos, e a prática do puro e simples extermínio dos recalcitrantes, certa de seu objectivo político, vai se difundindo sob o regime dos criminosos pela Europa inteira. Comparada ao campo de concentração, a penitenciária parece uma lembrança dos bons velhos tempos, assim como a folha de anúncios de outrora, que, embora já deixasse transparecer a verdade, também parece uma lembrança de bons tempos comparada à revista impressa em papel brilhante e tendo um conteúdo literário que preenche ainda melhor do que os anúncios - mesmo quando trata de Miguel Angelo - a função de boletim comercial, sinal de dominação e propaganda. O isolamento, que outrora se infligia de fora aos prisioneiros, se generalizou neste meio tempo e se instilou no sangue e na carne dos indivíduos. Sua alma bem adestrada e sua felicidade são tão desoladoras como as células da prisão, que os donos do poder já podem dispensar, porque a totalidade da força de trabalho das nações caiu presa deles. A privação de liberdade é um pálido castigo comparado com a realidade social.
LE PRIX DU PROGRÉS 28
Numa carta recém-descoberta do fisiologista francês Pierre Flourens, que gozou um dia a triste gl6ria de ter sido eleito, concorrendo com Victor Rugo, para a Academia Francesa, encontra-se uma estranha passagem:
"Ainda não consigo aprovar a utilização do clorofórmio na prática corrente das operações. Como o senhor sabe, consagrei a essa droga estudos aprofundados e, baseando-me em experiências efectuadas com animais, fui um dos primeiros a descrever suas propriedades específicas. Meus escrúpulos se fundam no simples facto de que as operações praticadas com o auxílio do clorofórmio representam sem dúvida um embuste tão grande quanto as outras formas conhecidas de anestesia. As drogas utilizadas agem unicamente sobre certos centros motores e de coordenação, bem como sobre a capacidade residual da substância nervosa. Sob a influência do clorofórmio, ela perde uma parte importante de sua aptidão a registrar vestígios de impressões sensoriais, mas de modo nenhum a capacidade sensorial enquanto tal. Minhas observações mostram, ao contrário, que, em consequência da paralisia geral da inervação, as dores são sentidas ainda mais vivamente do que no estado normal. O logro do público resulta da incapacidade do paciente de lembrar-se após a operação do que se passou. Se disséssemos a verdade a nossos doentes, é provável que nenhum deles escolheria essa droga, ao passo que agora, por causa de nosso silêncio, costumam insistir no seu uso.
'Mas, mesmo se fizermos abstracção do facto de que a única e duvidosa vantagem é um enfraquecimento da memória relativa ao tempo da intervenção, a difusão dessa prática parece-me apresentar um outro risco sério. Dado que a formação académica geral de nossos médicos é cada vez mais superficial, a medicina poderia se ver encorajada pelo emprego ilimitado dessa droga a empreender despreocupadamente intervenções cirúrgicas cada vez mais complicadas e mais graves. Em vez de proceder a essas experiências com animais para fins de pesquisa, nossos pacientes serão suas cobaias inocentes. É concebível que as excitações dolorosas, que, em razão de sua natureza específica, podem ultrapassar todas as sensações conhecidas dessa espécie, provoquem um dano psíquico permanente nos doentes ou mesmo levem, durante a anestesia, a uma morte indescritivelmente dolorosa, cujas peculiaridades permanecerão eternamente ocultas aos parentes e ao mundo, Não seria este um preço excessivamente alto a pagar pelo progresso?"
Se Flourens tivesse razão nesta carta, os obscuros caminhos do governo divino do mundo estariam pelo menos justificados. O animal estaria vingado pelo sofrimento de seu carrasco: cada operação seria uma vivissecção. Surgiria então a suspeita de que não nos comportamos com os homens e com as criaturas em geral de maneira diferente da maneira pela qual nos comportamos em relação a nós mesmos depois de ter sofrido uma operação, ou seja, cegos para o sofrimento. O espaço que nos separa dos outros significaria, para o conhecimento, a mesma coisa que o tempo que se intercala entre nós e o sofrimento de nosso próprio passado, a saber, uma barreira insuperável. Mas a dominação perene da natureza, a técnica médica e não-médica, tira sua força dessa cegueira; só o esquecimento a tornaria possível. A perda da lembrança como condição transcendental da ciência. Toda reificação é um esquecimento.
VÃO ESPANTO
o olhar fixado na desgraça tem algo da fascinação. Mas também algo de uma secreta cumplicidade. A má consciência social latente em todos os que participam da injustiça e o ódio pela vida realizada são tão fortes que, em situações críticas, eles se voltam imediatamente contra o interesse do próprio indivíduo como uma vingança imanente. Disso há, entre os burgueses franceses, um exemplo fatal, que se assemelhava ironicamente ao ideal heróico dos fascistas: eles se alegravam com o triunfo de seus iguais, como o que se exprimiu na ascensão de Hitler, mesmo quando ele os ameaçava de ruína; eles chegavam mesmo a tomar sua ruína como prova da justiça da ordem que defendiam. Uma prefiguração desse comportamento é a atitude de muitos ricos em face do empobrecimento, cuja imagem invocam para racionalizar a parcimónia, sua tendência latente ( apesar da tenacidade com que lutam por cada tostão) a eventualmente renunciar sem luta a todas as suas posses ou a colocá-las irresponsavelmente em jogo. No fascismo, eles conseguem realizar a síntese entre a cupidez de mandar e o ódio de si mesmo, e o vão espanto é sempre acompanhado do gesto: foi assim que sempre imaginei as coisas.
O INTERESSE PELO CORPO
Sob a história conhecida da Europa corre, subterrânea, uma outra história. Ela consiste no destino dos instintos e paixões humanas recalcados e desfigurados pela civilização. O fascismo atual., onde o que estava oculto aparece à luz do dia, revela também a história manifesta em sua conexão com esse lado nocturno que é ignorado tanto na legenda oficial dos Estados nacionais, quanto em sua crítica progressista.
Essa espécie de mutilação afecta sobretudo a relação com o corpo (Korper). A divisão do trabalho, onde o desfrute foi para um lado e o trabalho para o outro, proscreveu a força bruta. Quanto menos os senhores podiam dispensar o trabalho dos outros, mais desprezível ele se tornava a seus olhos. Assim como o escravo, também o trabalho foi estigmatizado. O cristianismo louvou o trabalho, mas em compensação humilhou ainda mais a carne como fonte de todo mal. Ele anunciou a ordem burguesa moderna -:em uníssono com o pagão Maquiavel - cantando o louvor do trabalho que, mesmo no Velho Testamento, era considerado como uma maldição. Para os Patriarcas do Deserto, São Doroteu) Moisés o Ladrão, Paulo o Simples e outros pobres de espírito. o trabalho servia ainda directamente para entrar no céu. Para Lutero e Calvino, o laço que ligava o trabalho à salvação já era tão complexo que a exortação febril ao trabalho, típica da Reforma, quase parece um escárnio, como uma bota pisando um verme.
Os príncipes e patrícios podiam ignorar o abismo religioso que se abrira entre sua vida terrestre e seu destino eterno pensando nos rendimentos que tiravam das horas de trabalho dos outros. A irracionalidade da graça divina abria-lhes a possibilidade da salvação. Sobre os outros, porém, só recaía uma pressão ainda mais forte. Eles pressentiam surdamente que a humilhação da carne pelo poder nada mais era do que o reflexo ideológico da opressão a que eram submetidos. O destino dos escravos da antiguidade foi o destino de todas as vítimas até os modernos povos colonizados: eles tinham que passar como sendo os piores. Havia duas raças na natureza: os superiores e os inferiores. A libertação do indivíduo europeu realizou-se em ligação com uma transformação geral da cultura, que aprofundava cada vez mais a divisão, à medida que diminuía a coerção física exercida de fora. O corpo explorado devia representar para os inferiores o que é mau e o espírito, para o qual os outros tinham o ócio necessário, devia representar o sumo bem. Esse processo possibilitou à Europa realizar suas mais sublimes criações culturais, mas o pressentimento do logro, que desde o início foi se propagando, reforçava ao mesmo tempo, com o controle sobre o corpo, essa obscena maldade que é o amor-ódio pelo corpo, que permeia a mentalidade das massas ao longo dos séculos e que encontrou na linguagem de Lutero sua expressão autêntica. Na relação do indivíduo com o corpo, o seu e o de outrem, a irracionalidade e a injustiça da dominação reaparecem como crueldade, que está tão afastada de uma relação compreensiva e de uma reflexão feliz, quanto a dominação relativamente à liberdade. Nietzsche, em sua teoria da crueldade, e sobretudo Sade reconheceram a importância desse factor, e Freud interpretou-o psicologicamente em sua teoria do narcisismo e da pulsão de morte.
O amor-ódio pelo corpo impregna toda a cultura moderna. O corpo se vê de novo escarnecido e repelido como algo inferior e escravizado, e, ao mesmo tempo, desejado como o proibido, reificado, alienado. É só a cultura que conhece o corpo como coisa que se pode possuir; foi só nela que ele se distinguiu do espírito, quinta-essência do poder e do comando, como objecto, coisa morta, "corpus". Com o auto-rebaixamento do homem ao corpus, a natureza se vinga do facto de que o homem a rebaixou a um objecto de dominação, de matéria bruta. A compulsão à crueldade e à destruição tem origem no recalcamento orgânico da proximidade ao corpo, de maneira análoga ao surgimento do nojo, que teve origem, de acordo com a intuição genial de Freud, quando, com a postura erecta e o afastamento da terra, o sentido do olfacto, que atraía o animal humano para a fêmea menstruada, tornou-se objecto de um recalcamento orgânico. Na civilização ocidental e provavelmente em toda civilização, o corpo é tabu, objecto de atracção e repulsão. Para os senhores da Grécia e do feudalismo, a relação com o corpo ainda era determinada pela habilidade e destreza pessoal como condição da dominação. O cuidado com o corpo (Leib) tinha, ingenuamente, uma finalidade social. O kalos kagathos29 só em parte era uma aparência, o ginásio servindo, por outra parte, para preservar () poder pessoal, pelo menos como training para uma postura dominadora. Quando a dominação assume completamente a forma burguesa mediatizada pelo comércio e pelas comunicações e, sobretudo, quando surge a indústria, começa a se delinear uma mutação formal. A humanidade deixa-se escravizar, não mais pela espada, mas pela gigantesca aparelhagem que acaba, é verdade, por forjar de novo a espada. É assim que desapareceu o sentido racional para a exaltação do corpo viril; as tentativas dos românticos, nos séculos dezanove e vinte, de levar a um renascimento do corpo (Leib) apenas idealizam algo de morto e mutilado. Nietzsche, Gauguin, George, Klages reconheceram a inominável estupidez que é o resultado do progresso. Mas tiraram a conclusão errada. Não denunciaram a injustiça como ela é, mas transfiguraram a injustiça como ela era. A reacção contra a mecanização tornou-se o adorno da cultura industrial de massa, que não consegue abrir mão dos gestos nobres. Os artistas, a contragosto, prepararam para a publicidade a imagem perdida da unidade do corpo (Leib) e da alma. A exaltação dos fenómenos vitais, da fera loura ao nativo das ilhas do Sul, desemboca inevitavelmente no filme de sarongues, no cartaz publicitário das drágeas de vitaminas e dos cremes para a pele, que são apenas os substitutos do objectivo imanente da publicidade: o novo, grande, belo e nobre tipo humano, vale dizer, dos chefes fascistas e suas tropas. Os chefes fascistas voltam a tomar em suas próprias mãos os instrumentos do assassínio, eles executam seus prisioneiros com a pistola e a chibata, mas não com base em sua força superior, mas porque esse aparelho gigantesco e seus verdadeiros potentados, que continuam a não fazê-lo com as próprias mãos, entregam-Ihes as vítimas da razão de Estado nos porões dos quartéis-generais.
Não se pode mais reconverter o corpo físico (Korper) no corpo vivo (Leib) .30 Ele permanece um cadáver, por mais exercitado que seja. A transformação em algo de morto, que se anuncia em seu nome, foi uma parte desse processo perene que transformava a natureza em matéria e material. As obras da civilização são o produto da sublimação, desse amor-ódio adquirido pelo corpo e pela terra, dos quais a dominação arrancou todos os homens. A medicina torna produtiva a reacção psíquica à corporificação do homem ( Verkorperung ) ; a técnica, a reacção à reificação da natureza inteira. Mas o assassino, o homicida, os colossos animalizados, que são secretamente empregados pelos donos do poder - legais e ilegais, grandes e pequenos - como seus executores, os homens violentos, que estão sempre aí quando se trata de eliminar alguém, os linchadores e os membros da Ku-Klux-Klan, o brutamontes que logo se ergue quando alguém começa a querer aparecer, as figuras terríveis às quais a gente se vê entregue tão logo a mão protectora do poder se retira, quando se perde dinheiro e posição, todos os lobisomens que vivem nas trevas da história e alimentam o medo sem o qual não haveria nenhuma dominação: neles, o amor-ódio pelo corpo é brutal e imediato, eles profanam tudo o que tocam, aniquilam tudo o que vêem à luz, e esse aniquilamento é o rancor pela reificação, eles repetem numa fúria cega sobre o objecto vivo tudo o que não podem mais fazer desacontecer: a cisão da vida no espírito e seu objecto. O homem os atrai irresistivelmente, eles querem reduzi-Io ao corpo, nada deve continuar a viver. Essa hostilidade dos inferiores, outrora cuidadosamente cultivada e alimentada pelos superiores laicos e espirituais, à vida que neles se atrofiou e com a qual se relacionam, homossexual e paranoicamente, pelo homicídio, essa hostilidade foi sempre um instrumento indispensável para a arte de governar. A hostilidade dos escravizados à vida é uma força inexaurível da esfera nocturna da história. Até mesmo o excesso puritano, a bebedeira, é uma vingança desesperada contra a vida. O amor da propaganda totalitária pela natureza e pelo destino é apenas uma superficial formação reactiva a essa servidão ao corpo, à civilização malograda. Não podemos nos livrar do corpo e nós o louvamos quando. não podemos golpeá-Io. A cosmovisão "trágica" do fascista são vésperas ideológicas a festejar verdadeiras núpcias de sangue. Os que na Alemanha louvavam o corpo, os ginastas e os excursionistas, sempre tiveram com o homicídio a mais íntima afinidade, assim como os amantes da natureza com a caça. Eles vêem o corpo como um mecanismo móvel, em suas articulações as diferentes peças desse mecanismo, e na carne o simples revestimento do esqueleto. Eles lidam com o corpo, manejam seus membros como se estes já estivessem separados. A tradição judia conservou a aversão de medir as pessoas com um metro, porque é do morto que se tomam as medidas - para o caixão. É nisso que encontram prazer os manipuladores do corpo. Eles medem o outro, sem saber, com o olhar do fabricante de caixões, e se traem quando anunciam o resultado, dizendo, por exemplo, que a pessoa é comprida, pequena, gorda, pesada. Eles estão interessados na doença, à mesa já estão à espreita da morte do comensal, e seu interesse por tudo isso é só muito superficialmente racionalizado como interesse pela saúde. A linguagem acerta o passo com eles. Ela transformou o passeio em movimento e os alimentos em calorias, de maneira análoga à designação da floresta viva na língua inglesa e francesa pelo mesmo nome que significa também "madeira". Com as taxas de mortalidade, a sociedade degrada a vida a um processo químico. Na diabólica humilhação do prisioneiro no campo de concentração, que o carrasco moderno acrescenta sem um sentido racional a seu martírio, desponta a rebelião não-sublimada e, no entanto, recalcada da natureza condenada. Ela atinge em toda sua atrocidade o mártir do amor, o pretenso criminoso sexual e libertino, pois o sexo é o corpo não-reduzido, aquilo pelo que anseiam secreta e desesperadamente todos eles Na sexualidade livre, o assassino teme a imediatidade perdida, a unidade originária, na qual não pode mais viver. Ela é o morto que ressurge para a vida. O assassino reduz tudo a uma única coisa, reduzindo-a a nada, porque ele tem que sufocar a unidade dentro de si mesmo. A vítima representa para ele a vida que superou a separação, ela, a vida, deve ser quebrada e o universo deve se reduzir ao pó e ao poder abstracto.
SOCIEDADE DE MASSAS
O culto dos astros do cinema tem como complemento da celebridade o mecanismo social que nivela tudo o que chama a atenção. Os astros são apenas os moldes para uma indústria de confecção de dimensões mundiais e para a tesoura da justiça legal e económica, com a qual se eliminam as últimas pontas dos fios de linha.
Adendo
A opinião segundo a qual ao nivelamento e à padronização dos homens corresponde, por outro lado, um crescimento da individualidade nas chamadas personalidades de líderes (Fuhrer ) , proporcionalmente a seu poder, é errónea e constitui ela própria uma parte da ideologia. Os senhores fascistas de hoje em dia são menos super-homens do que funções de seu próprio aparelho de publicidade, pontos de intersecção das reacções idênticas de inúmeros indivíduos. Se, na psicologia das massas hodiernas, o líder representa menos o pai do que a projecção colectiva e desmesuradamente aumentada do ego impotente de cada indivíduo, então as figuras dos líderes correspondem a ele efectivamente. Não é à toa que se parecem com cabeleireiros, actores de província e jornalistas chantagistas. Uma parte de sua influência moral reside justamente no facto de que, embora impotentes, se o consideramos em si mesmos, no que se assemelham a todos os outros, eles representam para esses a plenitude do poder, sem por isso deixarem de ser simples lugares vazios que o poder veio ocupar. Não é que eles constituam uma excepção ao processo de desintegração da individualidade, mas se trata antes do facto que a individualidade desintegrada neles triunfa e, de certo modo, se vê recompensada por sua desintegração. Os líderes tornaram-se totalmente o que sempre foram um pouco durante toda a era burguesa: actores representando o papel de líderes. A distância entre a individualidade de Bismarck e a de Hitler é praticamente a mesma que existe entre a prosa dos Pensamentos e Recordações e a algaravia de Mein Kampf {Minha Luta). Os que lutam contra o fascismo não têm o menor interesse em reduzir as imagines31 inflaccionadas do Fuhrer à real medida de sua nulidade. O filme de Chaplin tocou pelo menos um ponto essencial, mostrando a semelhança entre o barbeiro do gueto e o ditador.
CONTRADIÇOES
Uma moral como sistema, com princípios e conclusões, uma lógica férrea e a possibilidade de uma aplicação segura a todo dilema moral - eis aí o que se pede aos filósofos. Em geral, eles responderam a essa expectativa. Mesmo quando não estabeleceram nenhum sistema prático ou uma casuística elaborada, eles conseguiram deduzir do sistema teórico a obediência à autoridade. Na maioria das vezes, voltaram a fundamentar, valendo-se dos recursos da lógica, da intuição e da evidência, toda a escala dos valores tal como já a sancionara a prática pública. "Honrai os deuses com a religião legada por vossos ancestrais", diz Epícuro,32 e o próprio Hegel secundou-o. Quem hesita a se pronunciar nesse sentido será solicitado ainda mais energicamente a fornecer um princípio universal. Se o pensamento não se limita a ratificar os preceitos vigentes, ele deverá se apresentar de maneira ainda mais segura de si, mais universal, mais autoritária, do que quando se limita a justificar o que já está em vigor. Será que você considera injusto o poder dominante? Quem sabe você quer que impere o caos e não o poder? Você está criticando a uniformização da vida e o progresso? Será que, à noite, a gente deve voltar a acender velas de cera? Será que o fedor do lixo deve voltar a empestar nossas cidades, como na Idade Média? Você não gosta dos matadouros, será que a sociedade deve passar a comer legumes crus? Por mais absurdo que seja, a resposta positiva a essas questões encontra ouvidos. O anarquismo político, a reacção cultural baseada no artesanato, o vegetarianismo radical, as seitas e partidos excêntricos têm o chamado apelo publicitário. A doutrina só precisa ser geral, segura de si, universal e imperativa. O que é intolerável é a tentativa de escapar à disjuntiva "ou isso - ou aquilo", a desconfiança do princípio abstracto, a firmeza sem doutrina.
Dois jovens conversam: A - Você não quer ser médico?
B - Por causa da profissão, os médicos 'estão sempre lidando com os moribundos, e isso endurece as pessoas. Depois, com a institucionalização crescente, os médicos passam a representar em face do doente a empresa com sua hierarquia. Muitas vezes, ele se vê tentado a se apresentar como o administrador da morte. Ele se torna o agente da grande empresa em face dos consumidores. Quando se trata de automóveis, isso não é tão grave assim, mas quando os bens administrados são a vida e os consumidores são pessoas que sofrem, trata-se de uma situação em que não gostaria de me encontrar. A profissão do médico de família talvez fosse mais inofensiva, mas ela está em decadência.
A - Você acha que não deveria mais haver médicos e que deveríamos voltar aos charlatães?
B - Não disse isso. Só tenho horror de me tornar médico, e sobretudo um desses diretores-médicos com poder de comando sobre um hospital público. Apesar disso, acho que é melhor, naturalmente, que haja médicos e hospitais do que deixar os doentes morrer. Também não quero ser nenhum promotor público, mas acho que dar liberdade aos assaltantes seria um mal muito maior do que a existência dessa corporação que os põe na cadeia. A justiça é racional. Não sou contra a razão, só quero enxergar a forma que ela assumiu.
A - Você está se contradizendo. Você se aproveita o tempo todo dos serviços dos médicos e dos juizes. Você é tão culpado quanto eles próprios. Só que você não quer se dar ao trabalho de fazer o que os outros fazem por você. Sua própria existência pressupõe o princípio a que você gostaria de escapar .
B - Não nego isso, mas a contradição é necessária. Ela é uma resposta à contradição objectiva da sociedade. Quando a divisão do trabalho é tão diferenciada como hoje em dia, é possível que em dado lugar se manifeste um horror responsável pela culpabilidade de todos. Se esse horror se difundir, "e pelo menos uma pequena parte da humanidade se tornar consciente dele, talvez os manicómios e as penitenciárias se tornem mais humanos e os tribunais acabem se tornando supérfluos. Mas não é absolutamente por isso que eu quero ser escritor. Eu só queria ver com maior clareza a situação terrível em que tudo se encontra hoje em dia.
A Mas se todos pensassem como você, e ninguém quisesse sujar as mãos, então não haveria nem médicos nem juizes, e o mundo pareceria ainda mais horrível.
B - Mas é justamente isso que me parece questionável, pois, se todos pensassem como eu, espero, não apenas os remédios contra o mal iam diminuir, mas o próprio mal. A humanidade ainda tem outras possibilidades. Eu não sou a humanidade inteira e não posso simplesmente tomar o seu lugar em meus pensamentos. O preceito moral que diz que cada uma de minhas acções deveria poder ser tomada como uma máxima universal é muito problemático. Ele ignora a história. Por que minha aversão a ser médico deveria equivaler à opinião de que não deve haver médicos? Na verdade, há tantas pessoas aí que podem ser bons médicos e têm mais de uma chance de vir a ser médicos; Se eles se comportarem moralmente dentro dos limites traçados actualmente para sua profissão. terão minha admiração. Talvez cheguem mesmo a minorar o mal que descrevi para você; talvez, ao contrário, agravem-no ainda mais, apesar de toda a sua competência técnica e toda a sua moralidade. Minha vida, tal como a imagino, meu horror e minha vontade de conhecer parecem-me tão justificados como a própria profissão de médico, mesmo que eu não possa ajudar directamente a ninguém.
A - Mas se você soubesse que você poderia, se estudasse para médico, vir a salvar a vida de uma pessoa amada, vida que ela perderia com toda a certeza, não fosse por você, você não se dedicaria imediatamente ao estudo da medicina?
B - Provavelmente, mas você mesmo está vendo que, com seu gosto por uma coerência inexorável, você acaba tendo de recorrer a um exemplo absurdo, enquanto eu, com minha teimosia sem nenhum sentido prático e com minhas contradições, não me afastei do bom-senso.
Esse diálogo se repete sempre que uma pessoa não quer abrir mão do pensamento em benefício da prática. Ela vai sempre encontrar a lógica e a coerência no lado contrário. Quem for contra a vivissecção não deve mais fazer nenhum movimento respiratório, porque isto pode custar a vida a um bacilo. A lógica está a serviço do progresso e da reacção, ou, em todo caso, da realidade. Mas, na época de uma educação radicalmente realista, os diálogos tornaram-se mais raros, e o interlocutor neurótico B precisa de uma força sobre-humana para não ficar são.
MARCADOS
Ao atingir a década dos quarenta anos, as pessoas costumam fazer uma estranha experiência. Elas descobrem que a maioria das pessoas com que cresceram e mantiveram contactos começa a demonstrar distúrbios em seus costumes e em sua consciência. Um torna-se tão negligente em seu trabalho que seus negócios começam a periclitar , outro destrói o casamento sem a menor culpa da mulher, um terceiro vem a cometer desfalques. Mas também os que não passaram por acontecimentos marcantes apresentam indícios de decomposição. A conversação com eles torna-se insípida, fanfarrona, desconexa. Outrora, o quarentão ainda recebia dos outros um élan intelectual, mas agora ele tem a impressão de ser quase o único a demonstrar espontaneamente um interesse objectivo.
A princípio, ele se inclina a considerar a evolução das pessoas de sua idade como um infeliz acaso. Justamente eles mudaram para pior. Talvez isso tenha a ver com a geração e seu destino exterior particular. Finalmente, descobre que essa experiência é familiar, só que numa perspectiva diferente: a da juventude frente aos adultos. Pois ele não se convencera então de que algo não estava certo com este ou aquele professor do colégio, com os tios e as tias, os amigos dos pais e depois com os professores da universidade ou com o mestre dos aprendizes! Seja porque exibiam algum traço maluco e ridículo, seja porque sua presença era particularmente maçante, incomoda, decepcionante.
Nessa época, ele não pensava nisso, aceitava a inferioridade dos adultos como um simples facto natural. Agora, ele tem a confirmação disso: nas condições atuais, o simples transcurso da vida, ainda que se conservem certas habilidades técnicas ou intelectuais, é suficiente para levar, já na força da idade, ao cretinismo. Nem mesmo as pessoas experimentadas no trato dos homens e das coisas estão excluídas. É como se as pessoas, como castigo de terem traído as esperanças de sua juventude e terem se ajustado ao mundo, fossem marcadas por uma precoce decadência.
Adendo
Actualmente, o declínio da individualidade não ensina simplesmente a compreender sua categoria como algo de histórico, mas também desperta dúvidas quanto à sua essência positiva. A injustiça que sofre o indivíduo era o princípio de sua própria existência na fase da concorrência. Mas isso não se aplica apenas à função do indivíduo e de seus interesses particulares na sociedade, mas também à complexidade interna da própria individualidade. Foi sob o seu signo que se colocou a tendência à emancipação do homem, mas ela é, ao mesmo tempo, o resultado justamente dos mecanismos dos quais é preciso emancipar a humanidade. É na autonomia e na incomparabilidade do indivíduo que se cristaliza a resistência contra o poder cego e opressor do todo irracional. Mas essa resistência só foi possível historicamente através da cegueira e irracionalidade daquele indivíduo autónomo e incomparável. Inversamente, tudo o que se opõe incondicionalmente ao todo enquanto particular permanece preso de maneira ruim e opaca à ordem existente. Os traços radicalmente individuais e irredutíveis de uma pessoa são sempre duas coisas num só: o que não foi totalmente capturado pelo sistema dominante e sobrevive para sorte nossa e as marcas da mutilação que o sistema inflige a seus membros. Esses traços repetem de maneira exagerada as determinações básicas do sistema: na avareza, por exemplo, a propriedade fixa; na doença imaginária, a autoconservação irreflectida. Na medida em que o indivíduo utiliza esses traços para se afirmar desesperadamente contra a compulsão - da natureza e da sociedade, contra a doença e a bancarrota, esses traços assumem necessariamente um carácter compulsivo. Em sua célula mais íntima o indivíduo choca-se com o mesmo poder do qual ele foge para dentro de si mesmo. Isso torna sua fuga numa quimera sem esperança. As comédias de Moliere conhecem essa maldição da individuação tão bem quanto os desenhos de Daumier; mas os nacional-socialistas, que abolem o indivíduo, deleitam-se prazerosamente com essa maldição e instalam Spitzweg como seu pintor clássico. É só contra a sociedade endurecida, e não em termos absolutos, que o indivíduo endurecedor apresenta o melhor. Ele fixa a vergonha que se sente em face daquilo que a colectividade volta sempre a infligir ao indivíduo e que se consuma quando não há mais indivíduos. Os sequazes despersonalizados de hoje são a consequência dos boticários maníacos, dos apaixonados cultivadores de rosas e dos aleijados políticos dos tempos de outrora.
FILOSOFIA E DIVISÃO DO TRABALHO
É fácil identificar o lugar da ciência na divisão social do trabalho. Ela tem por função estocar factos e conexões funcionais de factos nas maiores quantidades possíveis. A ordem do armazenamento deve ser clara. Ela deve possibilitar às diversas indústrias descobrir prontamente a mercadoria intelectual desejada na especificação desejada. Em larga medida, a compilação já é feita em vista de encomendas industriais precisas.
Também as obras históricas devem fornecer material. A possibilidade de sua utilização não se deve buscar imediatamente na indústria, mas mediatamente na administração. Assim como Maquiavel escrevia para o uso dos príncipes e das repúblicas, assim também se trabalha hoje em dia para os comités económicos e políticos. :F. verdade que a forma histórica se tornou um estorvo, assim é melhor classificar logo o material histórico sob o ponto de vista de um determinado problema administrativo: por exemplo, a manipulação dos preços das mercadorias ou dos estados de espírito das massas. Ao lado da administração e dos consórcios industriais. entre os interessados encontram-se também os sindicatos e os partidos.
A filosofia oficial serve à ciência que funciona dessa maneira. Ela deve, como uma espécie de taylorismo do espírito, ajudar a aperfeiçoar seus métodos de produção, a racionalizar a estocagem dos conhecimentos, a impedir o desperdício de energia intelectual. Ela encontra seu lugar na divisão do trabalho, assim como a química e a bacteriologia. Os dois ou três restolhos filosóficos, que pregam a volta à adoração do Deus da Idade Média e à contemplação de essências eternas, ainda são tolerados nas universidades seculares porque elas são tão reaccionárias. Além disso, ainda há historiadores da filosofia que ensinam infatigavelmente Platão e Descartes, sem esquecer de acrescentar, naturalmente, que já estão ultrapassados. Aqui e ali associam-se a eles algum veterano do sensualismo ou algum perito personalista. Eles separam do campo da ciência o joio dialéctico que, de outro modo, poderia começar a medrar .
Contrariamente a seus administradores, a filosofia representa, entre outras coisas, o pensamento, na medida em que este não capitula diante da divisão de trabalho dominante e não aceita que esta lhe prescreva suis tarefas. A ordem existente não compele os homens unicamente pela força física e pelos interesses materiais, mas pelo poder superior da sugestão. A filosofia não é síntese, ciência básica ou ciência-cúpula, mas o esforço de resistir à sugestão, a decisão resoluta pela liberdade intelectual e real.
A divisão do trabalho, tal como se formou sob a dominação, não é absolutamente ignorada neste caso. A filosofia limita-se a escutar dela a mentira de que ela seria inevitável. Não se deixando hipnotizar pela superioridade do poder, ela segue-o em todos os cantos e recantos da maquinaria social que a priori não deve ser nem derrubada, nem redireccionada, mas compreendida sem sucumbir à fascinação que exerce. Quando os funcionários que a indústria mantém em seus estores intelectuais, as universidades, igrejas e jornais, pedem à filosofia que apresente o passaporte dos princípios com que legitima suas buscas, ela cai num embaraço mortal. Ela não reconhece nenhuma norma ou objectivo abstractos que, ao contrário dos vigentes, fossem praticáveis. Sua liberdade em face da força de sugestão da ordem existente reside justamente no facto de aceitar os ideais burgueses, sem transigir com eles, quer se trate dos ideais que seus defensores ainda proclamam mesmo desfigurados, quer se trate dos ideais que, apesar de toda manipulação, ainda possam ser reconhecidos como o sentido objectivo das instituições, tanto técnicas quanto culturais. A filosofia acredita na divisão do trabalho e que ela exista para os homens, acredita no progresso e que ele leve à liberdade. :É por isso que entra facilmente em conflito com a divisão do trabalho e com o progresso. Ela dá expressão à contradição entre a crença e a realidade e, ao fazer isso, atém-se estritamente ao fenómeno historicamente determinado. Para ela, diferentemente dos jornais, o assassinato em massa, apesar de suas proporções gigantescas, não é mais interessante do que a eliminação de alguns internados em asilos. Ela não dá à intriga do estadista envolvido com o fascismo nenhuma prioridade sobre um simples linchamento, nem privilegia a vertiginosa publicidade da indústria cinematográfica de preferência a um simples anúncio funerário O pendor à grandeza é algo que está longe da filosofia. Por isso, relativamente ao existente, ela se mantém ao mesmo tempo alheia e compreensiva. Sua voz pertence ao objecto, mas sem que este a queira: ela é a voz da contradição que, sem ela, não se faria ouvir , mas triunfaria em silêncio.
O PENSAMENTO
Crer que a verdade de uma teoria é a mesma coisa que sua fecundidade é um erro. Muitas pessoas parecem, no entanto, admitir o contrário disso. Elas acham que a teoria tem tão pouca necessidade de encontrar aplicação no pensamento, que ela deveria antes dispensá-Io pura e simplesmente. Elas interpretam toda declaração equivocadamente no sentido de uma definitiva profissão de fé, imperativo ou tabu. Elas querem submeter-se à Ideia como se fora um Deus, ou atacá-Ia como se fora um ídolo. O que lhes falta, em face dela, é a liberdade. Mas é próprio da verdade o facto de que participamos dela enquanto sujeitos activos. Uma pessoa pode ouvir frases que são em si mesmas verdadeiras, mas só perceberá sua verdade na medida em que está pensando e continua a pensar, ao ouvi-Ias.
Hoje em dia, esse fetichismo exprime-se sob uma forma drástica. Pedem-se prestações de contas pelo pensamento expresso, como se ele fosse a própria práxis. Justamente por isso toda palavra é intolerável: não apenas a palavra que pretende atingir o poder, mas também a palavra que se move tacteando, experimentando, jogando com a possibilidade do erro. Mas: não estar pronto e acabado e saber que não está é o traço característico daquele pensamento e precisamente daquele pensamento com o qual vale a pena morrer . A proposição segundo a qual a verdade é o todo revela-se idêntica à proposição contrária, segundo a qual ela só existe em cada caso como parte. Dentre as desculpas que os intelectuais encontraram para os carrascos - e, na última década, eles não ficaram de braços cruzados com relação a isso - a mais deplorável é a desculpa de que o pensamento da vítima, responsável por seu assassinato, fora um erro.
O HOMEM E O ANIMAL
Na história europeia, a Ideia do homem exprime-se na maneira pela qual ele é distinguido do animal. A ausência da razão no animal prova a dignidade do homem. Essa oposição foi matraqueada com tanta insistência e unanimidade pelos predecessores do pensamento burguês, os antigos judeus, os estóicos e os Padres da Igreja e, depois, pela Idade Média afora e os Tempos Modernos adentro, que ela passou a pertencer ao património básico da antropologia ocidental. Ainda hoje ela é reconhecida. Os behavioristas só aparentemente a esqueceram. O facto de que aplicam aos homens as mesmas fórmulas e resultados que eles, desencadeados, arrancam a animais indefesos em seus atrozes laboratórios de fisiologia confirma essa diferença de maneira particularmente refinada. A conclusão que tiram dos corpos mutilados dos animais não se ajusta ao animal em liberdade, mas ao homem atual. Ele prova, ao violentar o animal, que ele e só ele em toda a criação funciona voluntariamente de maneira tão mecânica, cega e automática como as convulsões da vítima encadeada, das quais se utiliza o especialista. O professor na mesa de dissecação define-as cientificamente como reflexos, o arúspice no altar proclamava-as como sinais de seus deuses. O homem possui a razão, que procede impiedosamente; o animal, do qual ele tira a conclusão sanguinolenta, só tem o pavor irracional, o instinto da fuga que lhe é vedada.
A falta de razão não tem palavras. Eloquente é a sua posse, que estende seu domínio através de toda a história manifesta. A terra inteira dá testemunho da glória do homem. Na guerra e na paz, na arena e no matadouro, da morte lenta do elefante, que as hordas primitivas dos homens abatiam graças ao primeiro planejamento, até à exploração sistemática do mundo animal actualmente, as criaturas irracionais sempre tiveram que fazer a experiência da razão. Esse processo visível esconde aos carrascos o processo invisível: a vida sem a luz da razão, a vida dos animais. Esta seria o tema genuíno da psicologia, pois só a vida dos animais decorre segundo impulsões psíquicas; quando a psicologia tem que explicar os homens, eles já regrediram e se destruíram. E quando os homens chamam a psicologia em seu socorro, o espaço reduzido de suas relações imediatas se vê ainda mais reduzido, mesmo aí eles são convertidos em coisas. O recurso à psicologia, para compreender o outro, é um gesto descarado; para a explicação dos próprios motivos, um gesto sentimental. A psicologia, porém, perdeu de vista seu objecto, esqueceu nas chicanas de seus alçapões e labirintos que falar da alma, conhecê-la, é algo que se impõe precisamente e tão-somente em face do animal. O próprio Aristóteles, que atribuiu aos animais uma alma, ainda que inferior, preferiu tratar dos corpos, de suas partes, movimento e geração, do que da existência própria dos animais.
O mundo do animal é um mundo sem conceito. Nele nenhuma palavra existe para fixar o idêntico no fluxo dós fenómenos, a mesma espécie na variação dos exemplos, a mesma coisa na diversidade das situações. Mesmo que a recognição seja possível, a identificação está limitada ao que foi predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se acha que se possa determinar como permanente e, no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há nenhum saber sólido acerca do passado e nenhum olhar claro mirando o futuro. O animal responde ao nome e não tem um eu, está fechado em si mesmo e, no entanto, abandonado; a cada momento surge uma nova compulsão, nenhuma ideia a transcende. O animal não compensa a privação do consolo com a diminuição do medo, a falta da consciência da felicidade com a ausência da tristeza e a dor. Para que a felicidade se torne substancial e confira a morte à existência, é preciso de uma reminiscência identificadora, de um conhecimento apaziguador, da Ideia religiosa ou filosófica, em suma, do conceito. Há animais felizes, mas como é curta essa felicidade! Para o animal, o transcorrer do tempo, que não é interrompido pelo pensamento libertador, é sombrio e depressivo. Para escapar ao vazio lancinante é necessário uma resistência cuja coluna vertebral é a linguagem. Até mesmo o animal mais forte é infinitamente débil. A doutrina de Schopenhauer segundo a qual o pêndulo da vida oscila entre a dor e o tédio, entre instantes punctuais de satisfação do instinto e uma ânsia infinita aplica-se ao animal, que não pode pôr termo à fatalidade pelo conhecimento. Na alma do animal já estão plantados os diferentes sentimentos e necessidades do homem e, inclusive, os elementos do espírito, sem o apoio que só a razão organizadora confere. Os melhores dias fluem numa mudança contínua como um sonho, que Q animal, aliás, mal pode distinguir da vigília. Falta-lhe uma transição c]ara do jogo para a seriedade, do despertar feliz do pesadelo para a realidade.
A transformação das pessoas em animais como castigo é um tema constante dos contos infantis de todas as nações. Estar encantado no corpo de um animal equivale a uma condenação. Para as crianças e os diferentes povos, a ideia de semelhantes metamorfoses é imediatamente compreensível e familiar. Também a crença na transmigração das almas, nas mais antigas culturas, considera a figura animal como um castigo e um tormento. A muda ferocidade no olhar do tigre dá testemunho do mesmo horror que as pessoas receavam nessa transformação. Todo animal recorda uma desgraça infinita ocorrida em tempos primitivos. O conto infantil exprime o pressentimento das pessoas. Mas, enquanto o príncipe conservou a razão, de tal modo que pôde exprimir na hora certa sua dor e ser assim resgatado pela fada, a falta de razão exila eternamente o animal em sua figura, a não ser que o homem que, pelo passado, se identifica com ele descubra a fórmula salvadora e com ela abrande no fim dos tempos o coração de pedra da eternidade.
Para o ser racional, porém, a solicitude pelo animal desprovido de razão é uma vã ocupação. A civilização ocidental deixou-a ao encargo das mulheres. Estas não tiveram nenhuma participação independente nas habilidades que produziram essa civilização. :É. o homem que deve sair para enfrentar a vida hostil, é ele que deve agir e lutar. A mulher não é sujeito. Ela não produz, mas cuida dos que produzem, monumento vivo dos tempos há muito passados da economia doméstica fechada. A divisão do trabalho imposta pelo homem foi-lhe pouco favorável. Ela passou a encarnar a função biológica e tornou-se o símbolo da natureza, cuja opressão é o título de glória dessa civilização. Durante milénios os homens sonharam com o domínio ilimitado da natureza e com a transformação do cosmo num infinito território de caça. :É. para isso que se voltavam as ideias das pessoas numa sociedade de homens. Era este o sentido da razão de que se ufanavam. A mulher era menor e mais fraca, entre ela e o homem havia uma diferença que ela não podia superar, uma diferença imposta pela natureza, a mais vergonhosa e humilhante que é possível na sociedade dos homens. Quando a dominação da natureza é o verdadeiro objectivo, a inferioridade biológica será sempre o estigma por excelência, e a fraqueza impressa pela natureza a marca incitando à violência. A Igreja que, no curso da história, poucas oportunidades perdeu para dizer sua palavrinha influente junto às instituições populares - não importa se se tratava da escravidão, das cruzadas ou de simples pogroms - também se associou, apesar do Ave Maria, ao juízo de Platão sobre as mulheres. A imagem da Madre Dolorosa de Deus foi uma concessão a resíduos matriarcais. Todavia, a Igreja também ratificou com essa imagem a inferioridade da mulher, da qual, no entanto, a imagem devia justamente resgatá-la. "Basta extinguir", exclan13 seu filho legítimo, De Maistre, "basta enfraquecer um pouquinho, num país cristão, a influência da lei divina, deixando subsistir a liberdade que dela advém para as mulheres, e logo vocês verão essa nobre e tocante liberdade degenerar numa vergonhosa licenciosidade. Elas se transformarão nos instrumentos funestos de uma corrupção universal que atingirá em pouco tempo as partes vitais do Estado. Ele cairá na podridão e sua decrepitude gangrenosa fará ao mesmo tempo vergonha e horror."33 O terrorismo dos processos de caça às bruxas, a que as gangues dos senhores feudais recorriam contra a população quando se viam em perigo, era ao mesmo tempo a celebração e a confirmação da vitória da sociedade dos homens sobre as etapas evolutivas matriarcal e mimética dos tempos primitivos. Os autos-de-fé eram as festivas fogueiras pagãs da Igreja, o triunfo da natureza sob a forma da razão autoconservadora para glória da dominação da natureza.
A burguesia embolsou junto à mulher a virtude e o recato: como formações reactivas da rebelião matriarcal. Ela própria obteve para toda essa natureza explorada a admissão no mundo da dominação, mas como uma natureza vencida. Subjugada, ela reflecte para o vencedor sua vitória através da submissão espontânea : a derrota, como devotamento; o desespero, como a beleza da alma; o coração violentado, como o seio amante. Ao preço de uma separação radical da prática, ao preço do retorno aos limites do círculo mágico, a natureza recebe a reverência do senhor da criação. A arte, a moral, o amor sublime são máscaras da natureza, nas quais ela reaparece transformada e se torna expressão de seu próprio contrário. Através de suas máscaras, ela conquista a linguagem; em sua distorção, manifesta-se sua essência; a beleza é a serpente que mostra a ferida em que penetrava outrora o espinho. Por trás da: admiração do homem pela beleza está emboscada a gargalhada sonora, o escárnio desmedido, a bárbara obscenidade que o potente dirige à impotência, à morte, à natureza. Desde que os bufões aleijados, cujos saltos e guizos exprimiam em outros tempos a triste felicidade da natureza vencida, se livraram do serviço dos reis, as mulheres foram encarregadas do cultivo planejado do belo. A puritana moderna aceitou o encargo cheia de zelo. Ela se identificava totalmente com tudo o que aconteceu, não com a natureza selvagem, mas com a natureza domesticada. O que ainda restava dos leques, cantos e danças das escravas de Roma acabou se reduzindo, em Birmingham, à execução do piano e outros trabalhos manuais, até que os derradeiros vestígios da licenciosidade feminina se enobreceram totalmente e se transformaram em símbolos da civilização patriarcal. Sob a pressão da publicidade universal, o pó-de-arroz e o batom, rompendo com sua origem hetáirica, transformaram-se em produtos para a protecção da pele, o maiô numa exigência de higiene. Impossível escapar .A simples circunstância de que tudo isso se passa no sistema totalmente organizado da dominação é suficiente para imprimir no próprio amor a marca da fábrica. Na Alemanha, as mulheres prisioneiras do sistema continuam a provar pela promiscuidade a obediência à ordem existente que demonstravam antigamente pelo recato apenas; pelo acto sexual indiscriminado, continuam a provar a rígida subordinação à razão dominante.
A megera se destaca nos tempos presentes como um fóssil da alta estima que a burguesia demonstrava pela mulher. Seus berros são, desde tempos imemoriais, a vingança que ela tira em sua própria casa pelas misérias que seu sexo teve que sofrer. Na falta da genuflexão, que não lhe cabia, a velha ruim se põe a invectivar , mesmo fora de casa, o distraído que deixa de se erguer em sua presença, e derruba-lhe o chapéu da cabeça. De qualquer maneira, este tinha que rolar pelo chão; é o que ela sempre exigiu na política, seja como reminiscência de seu passado de bacante, seja procurando superar numa fúria impotente o próprio homem e sua ordem. A sede de sangue que a mulher demonstra no pogrom supera a do homem. A mulher oprimida como megera sobreviveu a sua época e continua a mostrar a careta da natureza mutilada numa época em que a dominação já se pôs a modelar o corpo treinado dos dois sexos, reduzindo-os a uma uniformidade que faz desaparecer a careta. Contra o fundo dessa produção em massa, as increpações da megera, que pelo menos conservou sua própria cara, distinta das demais, tornam-se um sinal de humanidade - e a feiúra, um vestígio do espírito. Se a moça nos séculos passados exibia sua submissão nos traços melancólicos e na devoção amorosa, imagem alienada da natureza, objecto estético-cultural, a megera acabou por descobrir uma nova vocação feminina. Como uma hiena social, ela se pôs a perseguir activamente objectivos culturais. Sua ambição aspira por honrarias e publicidade, mas seu sentido pela cultura masculina ainda não está aguçado a ponto de impedir que reaja mal à dor que lhe é infligida, mostrando assim que ainda não se sente à vontade na civilização dos homens. A mulher solitária busca refúgio numa mistura de ciência e magia, em obras ridículas que nascem do ideal de um conselheiro de Estado ou de uma vidente nórdica. Ela sente-se atraída pela desgraça. A derradeira oposição feminina ao espírito da sociedade dos homens afunda-se no pântano das pequenas extorsões, dos conventículos e dos hobbies, ela se converte na agressão pervertida do social work34 e da conversa fiada teosófica, no exercício dos pequenos rancores em obras de beneficência e na Christian Science. Nesse pântano, a solidariedade com a criatura não se exprime tanto nas sociedades protectoras de animais quanto no interesse pelo neobudismo ou pelo pequinês, cuja cara desfigurada lembra ainda hoje, como nas velhas gravuras, o rosto do bufão superado pelo progresso. Os traços do cãozinho representam ainda, como os saltos desajeitados do corcunda, a natureza mutilada, enquanto a indústria de massa e a cultura de massa já aprenderam a preparar tanto os corpos dos animais de criação quanto os dos homens segundo métodos científicos. As massas uniformizadas estão tão pouco conscientes de sua própria transformação, da qual no entanto participaram tão convulsivamente, que não precisam mais de uma exibição simbólica dessa transformação. Entre as pequenas notícias da segunda e terceira páginas dos jornais, que falam na primeira das gloriosas e terríveis façanhas dos homens, pode-se ler às vezes o relato de incêndios de circos e envenenamentos de grandes animais. Os animais são lembrados quando seus últimos espécimes, companheiros dos bufões da Idade Média, perecem entre enormes tormentos, representando uma perda de capital para seu dono, que, na era do concreto armado, não soube protegê-los do fogo. A grande girafa e o sábio elefante são "oddities"35 que não divertem mais sequer um escolar sabido. Eles constituíram na África - o último canto da terra que procurou em vão proteger suas pobres manadas da civilização - um obstáculo para o pouso dos bombardeiros durante a última guerra. Agora, estão em vias de serem completamente dizimados. A terra que se 1ornou racional não carece mais do reflexo estético. A exorcização dos demónios se efectua pela impressão directa nos homens de seu carácter. A dominação não precisa mais de imagens luminosas, ela as produz industrialmente e penetra através delas com uma segurança ainda maior nos homens.
A distorção que pertence à essência da obra de arte, assim como a mutilação pertence ao brilho da beleza feminina, justamente aquela exibição da ferida na qual a natureza se reconhece, foi retomada pelo fascismo, mas não como aparência. Ela é infligida directamente aos condenados. Nesta sociedade, não existe mais nenhum sector onde a dominação se declare, como na arte, como uma contradição, nenhuma duplicação exprime mais a desfiguração. Essa expressão, porém, não se chamava outrora simplesmente beleza, mas pensamento, espírito e mesmo linguagem. Hoje a linguagem calcula, designa, trai, inspira o assassinato, ela não exprime nada. A indústria cultural tem seu padrão exacto fora de si mesma, ao qual pode se ater como a ciência: o facto. Os astros do cinema são especialistas, suas criações são registros do comportamento natural, classificações de reacções; os directores e escritores produzem modelos para o comportamento adaptado. O trabalho de precisão da indústria cultural exclui a distorção como um simples erro, como o acaso, o aspecto mau da subjectividade e do natural. Exige-se do desvio o motivo prático que o integra na razão. Só então ele se vê perdoado. A partir do momento em que a natureza começa a reflectir a dominação, o trágico desaparece, assim como o cómico; os senhores mobilizam uma seriedade proporcional à resistência a vencer, e um humor proporcional ao desespero que vêem. O gozo intelectual estava associado à representação do sofrimento; eles, porém, brincam com o próprio horror. O amor sublime ligava-se à manifestação da força através da fraqueza, à beleza da mulher , mas eles se ligam directamente à força: o ídolo da sociedade atual. é o rosto masculino de traços nobres e elegantes. A mulher está aí para trabalhar e parir; ou então para realçar, quando é apresentável, o prestígio do marido. Ela não leva o homem ao arrebatamento, e a adoração regride de novo para o egoísmo. O mundo com seus fins precisa do homem inteiro. Ninguém pode mais se dar, todos têm que ficar dentro. A natureza, porém, é para a práxis algo que está por fora e por baixo, um objecto, assim como a mulher do soldado na boca do povo. Agora, o sentimento permanece preso ao poder que se refere a si mesmo como poder. O homem depõe as armas diante do homem em sua frieza e sinistra tenacidade, como o fazia antes a mulher. Ele se torna a mulher que tem os olhos postos na dominação. Na colectividade fascista, com seus teams e campos de concentração, cada um é, desde a primeira juventude, um prisioneiro em sua célula; ela cultiva a homossexualidade. É o animal que deve conservar os traços nobres. O rosto humano de traços exagerados, lembrança embaraçosa de suas origens na natureza e de sua dependência dela, nada mais é senão uma irresistível incitação ao homicídio qualificado. As caricaturas dos judeus sempre o souberam, e a repugnância de Goethe pelos macacos revela os limites de sua humanidade. Quando os magnatas da indústria e os chefes fascistas têm animais em torno de si, não são cachorrinhos, mas cães dinamarqueses e filhotes de leão. Eles devem temperar o poder com o terror que incutem. O colosso do carniceiro fascista fica tão cego diante da natureza, que só pensa no animal para humilhar o homem através dele. Ele, sim, merece a censura que Nietzsche fizera injustamente a Schopenhauer e Voltaire,a saber, que "souberam disfarçar seu ódio por certas coisas e pessoas sob o manto da misericórdia em face dos animais."36 Um pressuposto da devoção dos fascistas pelos animais, pela natureza e pelas crianças é a vontade de perseguir. A carícia negligente da mão que roça os cabelos de uma criança ou o pêlo de um animal significa: esta mão pode destruir .Ela afaga delicadamente uma vítima antes de abater a outra, e sua escolha nada tem a ver com a culpa da vítima. A carícia serve para ilustrar o facto de que todos são iguais diante do poder, que eles não têm nenhuma essência própria. Para a finalidade sangrenta da dominação, a criatura não passa de um material. É assim que o Führer se interessa pelos inocentes, não é por seu mérito que são escolhidos, do mesmo modo que não é com base em seu merecimento que são executados. A natureza é uma porcaria. Só a força astuciosa capaz de sobreviver tem razão. Ela própria, por sua vez, é pura natureza; toda a maquinaria sofisticada da moderna sociedade industrial é a pura natureza se dilacerando. Não há mais nenhum meio capaz de exprimir essa contradição. Ela se realiza com a seriedade obstinada do mundo do qual desapareceram a arte, o pensamento, a negatividade. Os homens se tornaram tão radicalmente alienados uns dos outros. e à natureza que a única coisa que ainda sabem é: para que precisam uns dos outros e o que se infligem mutuamente. Cada um é um factor, o sujeito ou o objecto de uma prática qualquer, algo com quem se conta ou não se precisa mais contar.
Neste mundo liberado da aparência, no qual os homens depois da perda da reflexão de novo se tornaram os animais mais inteligentes, que subjugam o resto do universo, quando não estão se dilacerando entre si, respeitar o animal não é mais considerado simplesmente como sentimentalismo, mas como uma traição do progresso. Seguindo a boa tradição reaccionária, Gõring associou a protecção dos animais ao ódio racial, o prazer germânico e luterano em assassinar alegremente à amável esportividade do fidalgo caçador. Os fronts estão claramente separados: quem luta contra Hearst e Gõring se coloca do lado de Pavlov e da vivissecção, quem hesita é um alvo liberado para os dois lados. Ele deve se render à razão.' A escolha está predeterminada e é inevitável. Quem quiser mudar o mundo não deve por preço nenhum aterrissar nesse pântano das pequenas extorsões, onde se atolam, juntamente com os adivinhos, os políticos sectários, os utopistas e os anarquistas. O intelectual, cujo pensamento não adere a nenhuma potência histórica actuante, que não toma para orientação nenhum dos pólos para os quais tende a sociedade industrial, perderia a substância, seu pensamento perderia a base. Só o real seria racional. Nenhum dedo se levantará, dizem também os progressistas, para ajudar quem se recusa a colaborar. Tudo depende da sociedade, até mesmo o pensamento mais rigoroso teria que se vender às poderosas tendências sociais, sem as quais se tornaria um simples capricho. Esse acordo une todos os que têm o senso da realidade; ele se declara pela sociedade humana como se esta fosse uma prática de extorsão em massa na natureza. A palavra que não segue os objectivos de um dos ramos dessa prática de extorsão provoca uma fúria desmedida. Ela lembra que ainda tem voz aquilo que só existe para ser quebrado: lembra a natureza, de onde transbordam as mentiras dos que se voltam para uma cultura racista (volkisch) e folclorista. Quando essa voz interrompe por um momento o coro dessas mentiras, torna-se audível o horror que esse coro abafa, o horror que vive em cada animal e nos próprios corações racionalizados e quebrados. As tendências que são trazidas à luz por essa palavra são omnipresentes e cegas. A natureza em si mesma não é nem boa, como queria o antigo romantismo, nem nobre, como quer o novo. Como modelo e objectivo, ela representa o antiespírito, a mentira e a bestialidade. É só quando é reconhecida tal como realmente é que ela se torna a ânsia que a vida tem pela paz, aquela consciência que desde o começo animou a resistência tenaz contra os chefes e contra a colectividade. O perigo que ameaça a prática dominante e suas alternativas inevitáveis não é a natureza - a natureza, muito ao contrário, coincide com ela -, mas sim o facto de recordar a natureza.
PROPAGANDA
Propaganda para mudar o mundo, que bobagem! A propaganda faz da linguagem um instrumento, uma alavanca, uma máquina. A propaganda fixa o modo de ser dos homens tais como' eles se tornaram sob a injustiça social, na medida em que ela os coloca em movimento. Ela conta com o facto de que se pode contar com eles. No íntimo, cada um sabe que ele próprio será transformado pelo meio num outro meio, como na fábrica. A fúria que sentem quando se deixam levar por ela é a velha fúria dirigida contra o jugo, reforçada pelo pressentimento de que a saída indicada pela propaganda é uma falsa saída. A propaganda manipula os homens; onde ela grita liberdade, ela se contradiz a si mesma. A falsidade é inseparável dela. :É na comunidade da mentira que os líderes (Führer) e seus liderados se reúnem graças à propaganda, mesmo quando os conteúdos enquanto tais são correctos. A própria verdade torna-se para ela um simples meio de conquistar adeptos para sua causa, ela já a falsifica quando a coloca em sua boca. Por isso, a verdadeira resistência não conhece nenhuma propaganda. A propaganda é inimiga dos homens. Ela pressupõe que o princípio segundo o qual a política deve resultar de um discernimento em comum não passa de uma façon de parler.37
Numa sociedade que sabiamente impõe limites à superabundância que a ameaça, tudo o que é recomendado a todos por outras pessoas merece desconfiança. A advertência contra a publicidade comercial, que chama a atenção para o facto de que nenhuma firma dá nada de graça, vale em toda parte e, depois da moderna fusão do mundo dos negócios com a política, vale sobretudo para esta. Quanto maiores os elogios, menor a qualidade; diferentemente de um Rolls-Royce, o Volkswagen depende ,da publicidade. Os interesses da indústria e dos consumidores não se harmonizam nem mesmo quando aquela tem algo de sério a oferecer. Até mesmo a propaganda da liberdade pode engendrar confusão, na medida em que deve necessariamente nivelar a diferença entre a teoria e os interesses particulares daqueles a quem se destina. O fascismo defraudou os líderes trabalhistas assassinados na Alemanha da verdade de sua própria aço, porque desmentia a solidariedade através da selecção da vingança. Quando o intelectual é torturado até a morte no campo de concentração, nem por isso os trabalhadores do lado de fora precisam passar pior. O fascismo não foi o mesmo para Ossietzky e para o proletariado. A propaganda enganou a ambos.
É bem verdade que o que é suspeito não é a representação da realidade como um inferno, mas a exortação rotineira a fugir dela. Se o discurso ainda pode se dirigir a alguém hoje, não é nem às massas, nem ao indivíduo, que é impotente, mas antes a uma testemunha imaginária, a quem o entregamos para que ele não desapareça totalmente connosco.
SOBRE A GÉNESE DA BURRICE
O símbolo da inteligência é a antena do caracol "com a visão tacteante", graças à qual, a acreditar em Méfistófeles,38 ele é também capaz de cheirar. Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protector do corpo, ela se identifica de novo com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente. Se o perigo ainda estiver presente, ela desaparecerá de novo, e a distância até a repetição da tentativa aumentará. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada. O sentido do caracol depende do músculo, e os músculos ficam frouxos quando se prejudica seu funcionamento. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem, as duas coisas são inseparáveis.
Os animais mais evoluídos devem o que são à sua maior liberdade; sua existência mostra que, outrora, suas antenas foram dirigidas em novas direcções e não foram retiradas. Cada uma de suas espécies é o monumento de inumeráveis outras espécies cuja tentativa de evoluir se frustrou desde o início; que sucumbiram ao medo tão logo uma de suas antenas se moveu na direcção de sua evolução. A repressão das possibilidades pela resistência imediata da natureza ambiente prolongou-se interiormente, com o atrofiamento dos órgãos pelo medo. Cada olhar de curiosidade que o animal lança anuncia uma forma nova dos seres vivos que poderia surgir da espécie determinada a que pertence o ser individual. Não é apenas seu carácter determinado que o mantém sob a guarda de seu antigo ser; a força que vem de encontro a esse olhar é uma força cuja existência remonta a milhões de anos: foi ela que o fixou desde sempre em sua etapa evolutiva e impede, numa resistência sempre renovada, toda tentativa de ultrapassar essa etapa. Esse primeiro olhar tacteante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direcção que queria tomar , o animal torna-se tímido e burro. A burrice é uma cicatriz. Ela pode se referir a um tipo de desempenho entre outros, ou a todos, práticos e intelectuais. Toda burrice parcial de uma pessoa designa um lugar em que o jogo dos músculos foi, em vez de favorecido, inibido no momento do despertar. Com a inibição, teve início a inútil repetição de tentativas desorganizadas e desajeitadas. As perguntas sem fim da criança já são sinais de uma dor secreta, de uma primeira questão para a qual não encontrou resposta e que não sabe formular corretamente.39 A repetição lembra em parte a vontade lúdica, por exemplo do cão que salta sem parar em frente da porta que ainda não sabe abrir, para afinal desistir, quando o trinco está alto demais; em parte obedece a uma compulsão desesperada, por exemplo, quando o leão em sua jaula não pára de ir e vir, e o neurótico repete a reacção de defesa, que já se mostrara inútil. Se as repetições já se reduziram na criança, ou se a inibição foi excessivamente brutal, a atenção pode se voltar numa outra direcção, a criança ficou mais rica de experiências, como se diz, mas frequentemente, no lugar onde o desejo foi atingido, fica uma cicatriz imperceptível, um pequeno enrijecimento, onde a superfície ficou insensível. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem criar caracteres, duros e capazes, podem tornar as pessoas burras - no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas, no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má. E não apenas a pergunta proibida, mas também a condenação da imitação, do choro, da brincadeira arriscada, pode provocar essas cicatrizes. Como as espécies da série animal, assim também as etapas intelectuais no interior do género humano e até mesmo os pontos cegos no interior de um indivíduo designam as etapas em que a esperança se imobilizou e que são o testemunho petrificado do facto de que todo ser vivo se encontra sob uma força que domina.
Notas do capítulo: Notas e Esboços
1. Declarações, enunciados. (N. do T.)
2. Não razoável, irracional. (N. do T.)
3. Sou um fracasso. - É isso aí. (N. do T.)
4. Paul Deussen, Sechzig Upanishad's des Veda. Leipzig, 1905, p. 524.
5. Capítulo II, vers. 17-19.
6 Sobretudo Brihadâranyaka-Upanishad 3.5.1 c 4.4.22. Deussen. op. cit.. pp. 436 sg. e 479 sg.
7. Ibid., p. 436.
8. Marcos, cap. I, vers. 6.
9 J'-orlesungen iiber die Geschichte der Philosop/,ie, vol. II. W.erke, vol. XIV, pp. 159 sg.
10. lbid., p. 168.
11 .Cf. Deussen, op. cit., p. 373.
12. Cf. Eduard Meyer. Ursprung und Anfiing,e des G.hristentums, Stuttgart e Berlim, 1921, vol. I, p. 90.
13. Diógenes Laércio, IV, 15.
14. Cf. República, 372; Político, 267 sgg. e Eduard Zeller, Díe Philosophie der Griechen. Leipzig, 1922, 2.a parte, cap. I, pp. 325 sg., nota.
15. Cf. Deussen, Das System des V.edanta. Leipzig, 1906. 2.a ed., pp. 63 sgg.
16. Hermann Oldenberg. Buddha. Stuttgart e Berlim, 1914, pp. 174 sg
17. Cf. ibid., p. 386.
18. lbid., pp. 393 sg.
19. Cf. ibid." pp. 184 sgg. e 424 sgg.
20. Pena que o papai perdeu o controle. (N. do T.) 21. Apesar de tudo. (N. do T.)
22. Estrada principal, auto-estrada. (N. do T.) 23. Caronistas, caronas. (N. do T.)
24. Literalmente: o último grito, i.e., a última moda. (N. do T.)
25. Leibniz. La Monadologie. Ed. Erdmann. Berlim, 1840, § 7, p. 705. 26. Cf. ibid., § 51, p. 709.
27. Cf. R. Cajllois, Le Mythe et L 'Homme. Paris, 1938. pp. 125 sgg. 28. O preço do progresso. (N. do T.) 29. Belo e bom. (N. do T.)
30. Na linguagem corrente, Korper e Leib são sinônimos. Não é raro, contudo, que o termo Korper seja usado por filósofos para designar o físico, e o termo Leib para designar o orgânico, o corpo vivo, como ocorre nesta frase. Não é certo, porém, que os autores façam essa distinção sempre que usam um ou outro termo. Por isso, optamos por traduzir os dois termos por "corpo", em consonância com o uso normal, mas colocando, para controle do leitor, o termo Leib entre parênteses, sempre que este aparece no original. (N. do T.)
31. Pl. do latim imago, lit. imagem; em psicanálise, ~ protótipo inconsciente de personagens determinando a maneira como o indivíduo apreende o outro. (N. do T.)
32. Wilhelm Nestle (org.), Die Nachsokratiker. Iena. 1923. Vol. I, 72 a, p. 195.
33. Éclaircissement sur les Sacrifices. (Euvres. Lyon, 1892. Vol. V. pp. 322 sg. 34. Trabalho social. (N. do T.)
35. Curiosidades, objetos singulares, estranhos. (N. do T.)
J6. 1-."ietzsche, Die frohliche Wissenschaft. Werke, vol. V, p. 133. 37. Maneira de falar. (N. do T.) 38. Faust, 1.3 parte, verso 4068.
39. Cf. Karl Landauer, lntelligenz und Dummheit, em: Das Psychoanalyti.rche Volk.rbuch. Berna, 1939, p. 172.
O Conceito de Esclarecimento - (Theodor W. Adorno e Max Horkheimer 1944)
EXCURSO 1 Ulisses ou Mito e Esclarecimento - (Theodor W. Adorno e Max Horkheimer 1944)